Capitulo IV
Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
(CLARICE LISPECTOR)
Thank You for Loving Me
Se um dia eu pudesse apostar o quão terrível seria ter um vislumbre da felicidade e de repente ela se esvair, eu nunca tentaria tê-la. Foi como água. Ter uma água pura e liquida se esvaindo pelos dedos e não puder fazer nada para deter seu caminho. Abrir os olhos e encontrar o meu quarto escuro foi a pior parte do amanhecer. De acordar. Reconheci as flores frescas que deixei sobre a mesa. Me apoiei nos cotovelos, tentando achar algum tipo de razão para tudo. Era tão real. Assustadoramente real. Levei minhas mãos ainda trêmulas ao meu rosto e senti algo molhado, como lágrimas.
Larguei-me na cama, sem acreditar.
Droga. O que estava acontecendo comigo? Fechei os olhos com força, tentando fazer com que eu voltasse a dormir novamente mas nada. Eu estava absurdamente alerta, apenas um pronuncio chato de dor de cabeça, levemente incômoda.
Respirei resignada e acabei me levantando da cama. Eu estava novamente sozinha. Vesti meu robe e fui até a varanda do apartamento. Já era noite. Dava para ver as algumas luzes ao longe. Apertei com força meus olhos. Porque os sonhos tinham que ser tão cruéis? Eu adorava a minha vida. Adorava meu trabalho. E nunca tinha me remoído de nada desde que tinha perdido meus pais. Mas ainda assim...existia aquele vazio...que no momento estava quase me deixando sem ar.
Que saudade louca de algo de que eu nunca tive. Que saudade imensa de querer e poder mergulhar na escuridão daqueles olhos azuis que eu pudi contemplar por alguns poucos segundos. Foram tão poucos e ligeiros... era tão palpável, mesmo assim...olhando para toda aquela imensidão. E lágrimas grossas desceram sem que eu me desse conta do porque...
–
Um Cheiro de bacon fritando me acordou. Abri os olhos, vendo o quarto claro, com o sol batendo na cabeceira da cama. Esfreguei meu rosto, incomodada com a claridade que batia em mim. Sai da cama, indo até a janela. Sorri instantaneamente vendo a neve acumulada no jardim da casa.
E então o calor macio de novo. Encostei em seu peito frio. Suas mãos rodearam minha cintura, beijando o vão do meu pescoço. Me apoiei contra ele, expondo a minha pele quente do sono ainda. Reprimi um bocejo e ele se afastou, apenas segurando em meus ombros quando eu vacilei. Fechei os olhos quando ele passou os dedos pela minha bochecha, me fazendo ficar mais quente.
– Tudo bem?
Balancei a cabeça, em afirmativo.
– Tudo sim. Só um sono ruim – fiz uma careta – Detesto ter pesadelos. Eles são terríveis...- fechei os olhos por alguns segundos, só para que no instante eu seguinte, eu os abrisse de novo. – Não quero mais... – Eu ia dizer dormir mas minha voz se apagou.
– Então não devo me preocupar não é? – Rob estreitou os olhos, me deixando mais atenta. Ele suspirou, me deixando alerta. – Você não se arrepende não é? De se casar comigo cedo...Você é tão nova...Tinha 18 anos na época...e logo em seguida veio a Sara...
– Ei...isso é sério? Oh meu deus...Eu te amo. Eu viveria a nossa quantas vezes eu nascesse...e eu viveria...de novo...e de novo...
– Eu também te amo...Mas não sei...você não acha que eu meio que privei você de algo?
– Não acho...Sabe o que eu estaria fazendo se nós...não estivéssemos juntos? – Minha voz tremulou, lembrando do meu sonho. - O mesmo de agora...eu continuaria cuidando da minha loja...eu amo as flores. Isso nunca mudaria. Eu só...me sentiria extremamente sozinha...sem você...vocês...
– Eu também me sentiria muito só...sem você, docinho...
When i saw your face
It was like a space It was like a space
In my heart was filled In my heart was filled
It's like i knew It's like i knew
From the very start From the very start
That you were every other part of me That you were every other part of me
Quando eu vi seu rosto
Era como se um espaço
No meu coração se encheu
É como se eu soubesse
desde o começo,
Que você fosse toda outra parte de mim
Rob me abraçou com mais força, pousando o quiexo no vão do meu pescoço, enquanto eu cantarolava a nossa música. A nossa primeira música. A da nossa primeira vez. Do nosso primeiro encontro. Foi tão fácil ficar com ele. Era realmente a outra metade que faltava. E foi uma sorte tremenda ter nos encontrado. Porque a partir daí tudo aconteceu muito natural. A gente só precisava se encontrar para que tudo acontecesse.
Do nosso jeito. Meu e dele.
It's like I have loved you since It's like I have loved you since
From the moment when From the moment when
Since time began Since time began
You Ffill my heart You Ffill My Heart
É como eu tenho amado você desde então
O momento quando
Desde o início dos tempos
Você enche meu coração
Ele cantarolou a música no cantinho do meu ouvido, trazendo os deliciosos arrepios de volta. Eu não poderia imaginar, em tempo algum – viver uma vida sem ter ele ao meu lado. Que sentido teria?
Oh, love of mine Oh, love of mine
Why did it take so long to find Why did it take so long to find
Your touch Your Touch
Hope was never gone Hope was never gone
Even though it took so long Even though it took so long
To find you To find you
Oh, meu amor
Porque demorou tanto tempo para encontrar
Seu toque
Espero que nunca tinha ido
Mesmo que tenha demorado tanto tempo
Para te encontrar
– Te espero lá na sala certo? A Sara está te esperando... Você sabe como ela fica louca em não poder abrir logo os presentes de Natal não é?
– Eu sei. – Me afastei, colocando as mãos nos cabelos, bocejando no caminho. Ele beijou minha bochecha, se afastando rápido.
– Não demora – ele falou antes de fechar as portas. Separei a toalha e fui em direção ao banheiro. Pena que meus sentidos nunca foram muito bons. Eu escorreguei em algo na porta. Depois uma dor lucinante. E escuridão.
Eu odiava estar no escuro...de novo.
–
Eu estava sentindo uma dor grande em minha cabeça. Gemi, me mexendo, esfregando a testa.
Ouvi a risada da Jill, bem perto de mim.
– Não acredito que você dormiu ai na mesa, Kristen! Já está tarde...vá para casa. O expediente acabou.
Olhei em volta, totalmente confusa. Mas o que estava acontecendo comigo? Eu tinha a sensação que poderia pirar a qualquer momento. Jill saiu, e a vi atendendo um último cliente. Esfreguei minha testa, que tinha ficado avermelhada por conta da posição que eu tinha dormido. Suspirei cansada e olhei para o buquê de rosas brancas que eu tinha feito antes de adormecer. Sorri inconscientemente, ao lembrar que ainda faltavam mais 5 desses. Era uma encomenda para um casamento.
Estreitei meus olhos, percebendo algo jogado no chão. Perdido. Mas o que? O que seria? Me abaixei, sentindo uma dor chata e incômoda nas costas, lembrando que eu tinha dormido em uma má posição.
Peguei o pequeno embrulho nas mãos. Era uma caixa. Fechada. Parecia algum tipo de presente. Esbugalhei os olhos ao ver que tinha escrito em cima. Era o nome daquela cliente “Alice” e tinha importante do lado. Quase solto um palavrão ao ver aquilo. Mexi nos cabelos, apertando com força o pacote.
– Tudo bem? – Era a Jill, que voltava. Ela parecia estar preocupada. Comigo. Sorri levemente, afastando uma sujeira invisível do meu vestido.
– Sim...tudo. Pode ir.
– E você? Melhor ir para a casa Kristen...Você está bem? Parece doente...
– Eu estou bem. – soltei uma risadinha baixinha – Só vou olhar uns papéis e fechar tudo.
Ela assentiu, parecendo ter ficado satisfeita. Me deu um beijo estalado e foi embora. Com um tchauzinho.
– Nos vemos amanhã?
–Claro que sim...Até amanhã.
– Durma bem.
Balancei a cabeça, assentindo. Quando a Jill percorreu uma distância razoável, eu me permiti olhar de novo o pacote. Um cheiro macio e familiar subiu, me fazendo lembrar....fazendo-me ter saudade de algo.
Olhei com resignação para o pacote em minhas mãos e decidi entregar para a sua dona. Ou pelo menos essa foi a desculpa que eu usei para mexer no passado.
Eu só não sabia naquele momento que tanta coisa podia mudar. Em algum momento, entre o acordar e a sonolência eu decidi. Eu só esperava que eu estivesse preparada para tudo que viesse como conseqüência disso.
E às vezes...só às vezes...tentar mexer em algo há muito tempo esquecido traz a tona desejos e aflições ha muito tempo apagadas...
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OMG, o que será que vem por aí??? :)
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