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O Treinamento - Capítulo 3

Hey, novo capítulo de "O Treinamento" - Capítulo 3. Nesse capítulo nós conhecemos mais um pouco sobre a Kristen e a história com seu pai.




CAPÍTULO III


Chegar em casa era sempre bom, principalmente quando eu chegava e não tinha com quem discutir...ou apanhar. Livrei-me daquelas roupas e fui tomar um longo banho. Guardei o dinheiro de hoje na gaveta enquanto eu não tentava pensar em absolutamente nada. Era bom ter a mente vazia para variar um pouco.


Mas o que havia com George...ele queria que eu começasse a sair com caras! Nossa, isso não. Uma coisa é eu sentir prazer...outra coisa era dar prazer a alguém por pagamento.


Não. Eu tinha outros planos. Eu tinha que me concentrar em meus planos. De que outra maneira, eu ia descobrir a verdade sobre a minha mãe? E eu precisava descobrir. Engoli as lágrimas ao entrar naquele quarto de novo. Quanto tempo mesmo que eu não entrava ali? Anos...Dias após dia...aquele quarto totalmente fechado. Intacto.

Quase podia sentir o cheiro da minha mãe.
O lençol estava desarrumado, como se tivesse sido ontem que eu a tinha visto. E ela estava morta.
Era dolorido pensar nela de novo.
Vasculhei o quarto, olhando em volta.
Não tinha nada.
Nenhuma foto.
Meu coração pulou no peito.
Onde o idiota do meu pai tinha guardado as fotos da minha mãe? Será que tinha tido coragem de queimar todas? Não...Isso era horrível demais. Até para ele.

Suspirei e mal percebi quando algumas lágrimas quentes caíram pelo meu rosto, ao qual imediatamente eu enxuguei com pressa e com raiva de estar tão fraca.

Logo no momento em que eu precisava estar tão forte.
Balancei a cabeça, fazendo com que meu cabelo mexesse ao redor de mim. Aquele quarto estava com tanta poeira...mas eu vasculhei tudo...todos os armários vazios...a cama...quase quebrada e suja. Não era justo as crianças crescerem sem mães...e muito menos crescerem como um pai como meu.

Arrastei a cômoda e meus olhos pularam quando percebi um pequeno e minúsculo papel. Meus dedos estavam trêmulos, quando enfim, consegui pegar uma foto.

Era uma minúscula foto praticamente 3x4.
A minha mãe.
Grávida de mim.

mamãe...onde você está?

Porque a cada semana que tinha se passado vinha se infiltrando em mim...uma suspeita.

De que ela estava viva. Em algum lugar do mundo.
E o infeliz...
O único que sabia...
O meu pai...
Tinha levado aquele segredo para o túmulo.

Eu vou te encontrar” – sussurrei para o nada, enquanto guardava no bolso aquele minúsculo pedaço de papel, que naquele momento parecia ser a minha vida.

Sai do quarto e fui para debaixo do chuveiro, praticamente querendo arrancar de mim a pele, com tantos esfregões que eu dava, já ficando em tons assustadoramente avermelhados.

Eu me sentia suja.
Por ter sido tão fácil com o meu chefe...ou qualquer outro.
Ele me deixava excitada...mas eu não sentia nada. Absolutamente nada...só o sempre e bem vindo vazio de novo. Fechei os olhos, tentando varrer de minha mente as minhas imagens. A dor. O choque.

Como doía.
Doía tanto ser tratada daquele jeito pelo meu próprio pai.
Há, porra...ele era um filho da puta sacana.
Que adorava bater em mim.
Que tipo de pai sente prazer em bater em seu próprio filho.
Um tipo como o meu.
Que estava morto. A sete palmos do chão...graças a deus.

-

Desci as escadas, quase atropelando meus próprios pés na manhã seguinte e disquei o número que achei nas coisas dele. Tentei ordenar que meu peito parasse de se comportar daquele jeito.
Daquela maneira totalmente irracional.
Eu podia ver a hora que alguém pudesse escutar as batidas desenfreadas do meu coração. Mas quem escutaria? Eu estava sozinha...calada.

Seria estranho escutar minha voz de novo.
O que eu falaria?

“Alô”  - escutei uma voz grossa e forte do outro lado. Gélida, na verdade. Uma voz de comando. Raspei a garganta e prossegui.

“Alô. Com quem eu falo para conseguir uma reunião com o Senhor Aro Volturi?”

Alguns segundos de silêncio. Então uma risada.
Mas não aquele riso puro de divertimento.
Era um deboche.
Ele se divertia às minhas custas.
Apertei com força meus punhos, totalmente contrariada com aquela situação.

“Não funciona desse jeito mocinha” – ele frizou bem o mocinha, me deixando ainda mais contrariada – “Você tem que ser indicada por alguém para conseguir falar com o Dr. Aro”

Ha, merda...
Muito mal...

“E se eu não tiver ninguém que me indique”

Ele riu debochado de novo.

“Então não vai poder falar com ele.”

E desligou. Na minha cara. Olhei abismada para o telefone, totalmente sem reação e sem acreditar que isso estava acontecendo.
Eu tinha que dar um jeito.

Mas como? Como?

Deus até que podia se lembrar de mim e que um milagre aconteça não é mesmo?

-

O dia passou rápido e já estava me arrumando para ir à boate de novo. Olhei no espelho minha cara pálida, apenas com um batom claro em meu rosto.

E eu que pensei que ontem seria o último dia...
Como nós nos enganamos nessa vida...

Me recusei a continuar a olhar a minha imagem apagada e me afastei com força daquele instrumento de tortura. Fechei as portas e fui em direção à parada...para mais uma noite.

Até quando tudo aquilo ia continuar.
Mordi meus lábios, com mais força dessa vez.
Provavelmente ficaria marcado.
Como eu.

As marcas do corpo nem chegam perto às marcas da mente...

-

Naquele dia nem vi o meu chefe. Menos mal. Iria me sentir pior se ele viesse todo cheio de marra e eu acabasse cedendo. Como ontem. E como das outras vezes.

Dancei como se não fosse o meu corpo ali. Como se a minha alma pudesse ser curada de toda a dor daqueles anos passados. Eu sentia o suor escorrendo pela minha pele e isso me aliviava. Cheguei a fechar os olhos em alguns momentos, sentindo a música fluir e isso me levava a caminhar pelo palco com uma desenvoltura surpreendente. Ao fundo ouvi gritos. De homens. O de sempre. Abri meus olhos de vez...só para encontrar...me deparar com duas orbes azuis esverdeadas. Me encarando. Sem sorrir.

Como se me analisasse de alguma maneira.
Naquele momento eu quis que a música acabasse logo.
Eu não gostava daquele homem.
Como se de alguma maneira doida ele pudesse desvendar a mim mesma, de uma maneira que nem eu sabia ao certo.E isso me dava medo.

A música acabou e eu praticamente corri até o camarim, tirando a roupa e pondo meu vestido mais leve, que ia até os joelhos, deixando meus cabelos soltos.
Mas a porta abriu-se e meu chefe apareceu. Com um sorriso cínico.

“Olá, baby”

“Olá George”
“Preciso mencionar...” – ele passou a língua pelos seus próprios lábios e seus olhos se deteram por alguns segundos em meus seios. Eu balancei a cabeça, contrariada e negando...se ele pensasse que poderia me ter hoje...de alguma maneira. “Você esteve estupenda. Magnifica, baby”

“Obrigada”

Me dava vontade de vomitar quando ele se referia a mim assim.
Era jocoso.
E inevitavelmente eu me sentia mais suja.

“Alguém quer lhe ver.”

“George...eu já disse que...”

“Pare com o estrelismo ok?” Ele irradiava raiva. “Vá lá fora.Dê o seu melhor sorriso e entretenha esse cliente. Ele foi bem claro. Quer você.”

Eu arregalei os olhos assustada.

“Não precisa abrir suas preciosas perninhas para ele.”

George riu, chegando mais perto e senti o cheiro de bebida barata.
Até nisso o idiota economizava.

“ É só uma companhia...” Ele tocou meus lábios, puxando o interior em sua direção.
“Mas cá entre nós...aposto que você baby...do jeito que é quente...vai acabar pedindo...para ele te tocar...gozar...”

“Páre!”

Gritei, me afastando. Ele riu e apontou àquele cara que me olhava. Me desnudava enquanto eu dançava.

Porque logo ele?
Porque não outro?
Porque Deus insistia em me esquecer? Em não lembrar de mim?




Nada é mais eficaz do que inspirar e expirar lenta e profundamente para administrar algo que você não pode controlar, e a seguir se concentrar naquilo que está bem na sua frente.

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