...E se antes de cada ato nosso, nos puséssemos a prever todas as consequências dele,
a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar.
(Ensaio sobre a Cegueira)
Pov da Kristen
Apertei com força quando senti uma mão quente agarrada a minha. Tentei me mexer mas a dor ficava maior a cada movimento leve.Tudo parecia tão ruim. Forcei meus olhos a se abrirem e tentar entender o que tinha de fato acontecido mas era como se alguém martelasse incessantemente em minha cabeça e cobrisse meus olhos com uma venda negra.
Ele beijou minha bochecha e eu não tentei mais ir contra a dor. Apenas me deixei levar por ela.
Eu não era tão forte assim.
Da segunda vez que eu acordei, a dor de cabeça não estava mais lá e eu pudi me movimentar com mais facilidade. Senti que estava em algum tipo de cama macia. Passeei meus dedos pelas minhas próprias mãos e senti a aliança.
Então lembrei...
DEUS! Eu estava casada. Com o Rob.
Meu marido...o acidente!
– Rob...
– Estou aqui...- foi quase imediato seu suspiro – Que bom que finalmente acordou...
– Eu dormi muito?
– Um pouco amor...um pouco...
– Quanto?
– Três dias que pareceram meses...
Engoli em seco, sem saber o que pensar. Meus olhos doíam. Porque eu ainda usava aquela maldita venda?
– O acidente...Rob...amor, você está bem? – choraminguei – perdemos a nossa lua-de-mel em Paris....
– Nós vamos a Paris quando você melhorar, honey...
– Você promete?
– Eu prometo. – Ele beijou minha testa. De algum modo, aquilo só me fez ficar ainda pior. Resolvi deixar todo aquele sentimento lá no fundo e apertei suas mãos entre as minhas. Parecia que elas estavam por ali desde sempre.
– Eu vou cobrar – suspirei, desembaraçando nossas mãos. – Você está bem? – perguntei de repente.
– Estou...- ele riu. – Só foi umas escoriações bobas...Nem quebrei nada...
– Então minha sorte trabalhou de novo. – Eu ri, ou pelo menos, tentei rir de mim. – Não é novidade que a pior parte tenha sobrado toda para mim. De novo.
– Kris...
–Não. Tudo bem amor...nada do que uns dias de cama para me fazer sentir nova de novo...ai podemos ir para casa...e para nossa lua-de-mel...
– Kris...acho que vai durar mais do que uns dias...
Suspirei cansada.
– Então algumas semanas né? Meu corpo realmente está dolorido mas não é isso que me incomoda...
– O que então?
– Essa maldita venda! Porque eu estou com ela? Rob? – Murmurei quando ele não me respondeu.
– Vão tirar em alguns dias...o acidente foi feio...Você...os vidros do carro foram parar bem no seu rosto e essa venda é necessária...
– Ok, então...- De repente estanquei quando lembrei da palavra vidro, mencionada por ele. – Rob...amor...por favor...seja sincero...- choraminguei.
– Kris...você é minha esposa. Vou ser sempre sincero com você bonequinha...
– Eu estou muito feia? Desfigurada? Oh meu deus...estou com cicatrizes?
– Não está...De algum modo...parece que os vidros foram em cheio na região dos seus olhos...
– Hun...Certo...Então...nada de cicatrizes?
– No rosto não...mas...
– Diga...eu agüento....- suspirei fundo.
– Você quebrou uma perna e deslocou o ombro...
– Oh...por isso que eu senti tanta dor na hora.
Senti meu peito apertar de uma maneira ridícula. Algo não estava bem.
– Você não está me escondendo nada Rob?
– Claro que não...
– Eu...Me beija – pedi de repente. Ele parecia sorrir compreensivo apesar da minha venda. Então de novo senti seus lábios quentes em minha testa.
Mas que droga! Ele era o meu marido e não meu pai.
– Amor...- comecei – Se eu quisesse esse tipo de beijo eu teria chamado meu pai do além e não meu marido. Eu quero um beijo. De verdade. – ele continuou mudo – Na boca sabe? Você se aproxima e beija a minha boca, entende? NADA DE TESTA, POR FAVOR!
– Kris...você não está com dor...Oh meu deus...você acabou de se acidentar...Não me diga que pensa em...
– Eu penso amor...Penso muito...Eu sonhei muito sabe? Dá para me beijar logo ou vou ter que me levantar dessa cama?
Ele riu e senti todos os pelos do meu braço se eriçaram quando Rob tocou meu rosto. Então ele me beijou. Seus lábios eram quentes e macios de encontro aos meus que pareciam gelados.
Heloooo, eu fiquei dormindo por quatro dias né? Não esperavam que eles estivessem em uma temperatura alta né? Ele mordiscou meu lábio inferior, me fazendo abrir mais a boca, quando ele aprofundou mais o beijo. Meu coração disparou enquanto eu sentia sua língua tocando na minha, numa dança já conhecida mas ao mesmo tempo nova.
Meu corpo parecia tão mole, quase igual a uma gelatina. Precisava ficar desse jeito, precisava? Deus, eu parecia uma marionete com ele. Então Rob se afastou e eu respirei fundo em busca de um pouco de ar.
– Nossa...eu estive com saudades disso...- Murmurei assim que encontrei um pouco de ar e quando meu coração resolveu bater normalmente.
– Você vai me contar que tipo de sonhos você esteve tendo comigo não é?
– Vou sim amor...em Paris.
Eu queria mesmo ficar mais tempo acordada com ele mas meu corpo clamava por sono, então apenas fechei meus olhos e fui levada para um mundo sem dor.
**
– O médico vai vir falar com você, Kris...
– É bom mesmo – suspirei – tentando unir as duas partes da minha blusa. Eu já estava no hospital a um mês e tinha até tirado todos os gessos. Só faltava àquela maldita venda em meus olhos. – Não agüento mais ficar no escuto.
– Vamos ver o que ele fal...
Doutor!
– Ele está aqui Kristen – Rob sussurrou ao meu ouvido.
– Olá, garota, que tal ver esse lindo sol lá fora? – ouvi uma voz aguda falar.
– Finalmente...- murmurei contente.
Ele começou retirar a venda de minha pele e a cada segundo eu sentia a espessura diminuir. Meus batimentos cardíacos estavam nas alturas.
– Pode abrir os olhos Kristen – o médico anunciou.
Mas algo estava errado. Definitivamente errado.
POV DO ROB
Eu não sei em que tipo de pesadelo nós estávamos nos metendo. Me acostumar com a visita daquela mulher estava sendo um grande problema. Pensei que se ignorasse ela percebesse a minha real intenção e desaparecesse. Isso não aconteceu.
Então já era a véspera do meu casamento quando ela me ligou, choramingando e falando que tinha visto uma nota da cerimônia em um pequeno jornal.
DEUS! Quando ela ia finalmente entender que eu a queria fora da minha vida? Não tinha sido suficientemente ruim todos aqueles anos? Se a Kristen soubesse da existência dela, capaz de nunca mais querer mais nada comigo.
O desprezo era a nossa melhor arma. E eu a usei.
O que mais ela queria?
Cheguei com antecedência a cerimônia, suando muito. Ela não se atreveria em aparecer certo?
Quando vi a Kris entrar pela porta da igreja, tudo mais foi esquecido. Ela sorria contente e ninguém mais existia. De repente, tudo tinha valido a pena...só para ter àquele momento.
Tão único. E tão nosso.
E depois de tudo isso nós estávamos aqui. Em um hospital, depois da Kristen ter passado por um coma. Ela parecia ter desaparecido de nossas vidas completamente. Ou ao menos eu esperava que sim.
]
Nenhum telefonema. Nenhum contato.
Talvez àquele acidente tivesse uma parte boa e ela tivesse saído completamente da minha vida. Sem chances de volta nenhuma nem aparições surpresas. Fazia mais de uma mês e hoje a Kristen ia sair da escuridão. Tudo ficaria bem.
Eu percebi logo que algo estava errado. Definitivamente errado quando o médico acabou de retirar a venda de seus olhos. Seu rosto estava angustiado quando os vi completamente abertos.
Eles estavam sem vida. Sem luz.
Naquele momento eu soube...nada estava bem.
Nunca mais seríamos os mesmos novamente.
Nem eu...nem ela.
POV DA KRIS
– Eu...- lambi meus lábios. – Porque tudo estão tão escuro? ROB! – gritei.
– Oi amor...estou aqui. Do seu lado. – ele beijou minha testa.
– O que...porque não acendem a luz?
– Ho...ney...Doutor?
– CALMA. Pode esperar lá fora? Preciso examiná-la.
– Volto já, Kris...
E ele se foi. Droga! O que malditamente estava acontecendo? Será que ele não tinha retirado completamente as vendas em meu rosto? Num gesto desesperado, levei minhas mãos trêmulas até minha face. Não tinha mais nada lá.
– Doutor???
– O que está acontecendo?
– Vou te examinar...nós fizemos a cirurgia...isso não era...
– DOUTOR! O QUE ESTÁ ACONTECENDO?
Porque parecia que ninguém estava me escutando?
– Eu preciso te examinar primeiro. Fique calma, senhora.
– Como espera que eu fique calma se ninguém me fala nada do quee está acontecendo?
– Certo. Seu acidente foi sério.
– O quão sério?
– Muito.
– OK. Mas eu estou bem agora não é? Quero dizer, eu ando...como...escuto...sinto...
– Mas não vê...
– O QUE?
–Vários pedaços de vidros foram em cheio em seus olhos...pensei que tínhamos corrigido o problema na cirurgia mas...acredito que seja mais sério...já que...
– O que você está tentando dizer?
– Você está cega, Kristen. Completamente.
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