Pequenas Escolhas da Vida - Capítulo 1
Um ano antes.
Vou ser bem sincera. Meu dia não podia ter começado melhor. A chuva era torrencial. E eu parecia um pinto. Um pinto molhado. Primeiro, o dinheiro exorbitante que gastei nessa fubá que é meu cabelo escorria pela minha pele. Segundo, eram três da tarde. Eu tinha perdido a minha entrevista de emprego. Terceiro, eu tinha acabado de descobrir que meu namorado gostava dos meus amigos. Amigos masculinos. Meu ex-namorado era guy.
Tem como melhorar o dia mais perfeito de toda a minha vida? E se eu soubesse, naquele momento, que meu desejo podia se realizar. Meu dia melhorou...mas não o “melhor” que eu pensei que fosse.
Meu celular tocou. Praguejei baixinho embaixo daquela tenda do hotel. Só me faltava alguém sair e me pedir para eu sair. Deus, a chuva não passava de jeito nenhum. Eu olhava para o céu e ele estava branco. Como gélido. Meus dentes batiam pelo frio.
– Alô? – Eu mal enxergava nada e atendi o telefone, sem nem ao menos ver quem me ligava – Quem é?
– Como quem é? Sou a Brit.
Brit era minha melhor amiga desde...sempre. Nós tínhamos nos conhecido no colegial e mesmo depois de mais de 20 anos estávamos juntas. E até eu não entendo como. A Brit era o completo oposto a mim. Para começar, ela tinha sorte. Eu azar. Ela estava casada. Eu solteira. Seu marido não dava em cima dos meus colegas. O meu dava. Ele era guy. Brit era grande de cabelos pretos, imensos de compridos.
E tinha olhos castanhos escuros. Ela era linda. Eu era minúscula. Tinha olhos verdes e me achava tão branquinha que podia geralmente desaparecer. E pontinhos minúsculos espalhados pelo meu corpo. E claro, a estranha mania das pessoas quererem me carregar no bolso. Oi? Eu não quebro.
– Brit! – Gritei, quase histérica – Graças a Deus, você ligou!
– Kris? O...o que houve? Onde você...Sabia que meu chefe ligou falando que você não foi a entrevista de emprego...?
– Eu sei. – choraminguei, trocando o celular de mão. – Estou presa...
– PRESA? – Ela gritou mesmo.Que estranho...Não me lembro ela gritar com nada. – Presa...tipo cadeia?
Eu gargalhei.
– Não, sua louca. Presa, tipo a chuva...Oh, Brit...eu me molhei toda....meu cabelo foi pro espaço. Do jeito que a sorte anda comigo, capaz de eu pegar uma pneumonia...e morrer.E pra completar, eu PERDI! Perdi a droga da entrevista...Daqui a pouco aquele pinguço me expulsa do apartamento. Afinal, o apartamento é dele e eu não paguei ainda sem mês...
– Dá pra fechar o bico por um momento? Olhe, vou tentar remarcar a entrevista.Para amanhã. E faça o favor, de estar lá, certo?
– Sim, senhora.
Ela suspirou do outro lado e eu quase podia ver seus olhos se espremendo, em preocupação com a minha situação. A diferença de três anos entre nós parecia trinta.
– O que eu faço com você?
– Sei lá. Me mata.
Ela riu.
– Claro, bem provável. Adoraria passar o resto da minha vida na cadeia.
Fiz um bico estranho, e foi como se outra pessoa tomasse conta do meu corpo.
– Há, é que você é besta. Não leu aquele livro. – Cocei a cabeça – Hun, claro. Como fazer um crime perfeito?
– Aquele que o escritor foi pego pela esposa.
– Um acaso...um acaso...
– Sei, sei...- ela parecia distraída. – Porque não pega um táxi e vem aqui em casa. Preciso te apresentar a uma pessoa...
– Pessoa? Há, não...Nem me venha com encontros absurdos. Acabei de saber que meu namorado é guy.
– Ele não era mais seu namorado, Kristen.E que eu saiba...você terminou com ele!
– Não quero falar sobre isso.
– Esteja aqui às oito da noite.
– Que...que? QUE? Espera, o telefone ta ruim...não to ouvindo...Tchau Brit...
Tirei o telefone perto do meu ouvido e desliguei.Ainda tinha um sorriso nos lábios fazendo isso. Mas era só o que me faltava...minha própria amiga arrumando encontros no escuro pra mim. Eu ein, nem morta.
Suspirei, olhando pro céu ainda. É, pelo jeito, aquela chuva ia demorar a passar.
Tirei o telefone perto do meu ouvido e desliguei.Ainda tinha um sorriso nos lábios fazendo isso. Mas era só o que me faltava...minha própria amiga arrumando encontros no escuro pra mim. Eu ein, nem morta.
Suspirei, olhando pro céu ainda. É, pelo jeito, aquela chuva ia demorar a passar.
Certo, mas nem tanto.
Vinte minutos depois...Meus pés ardiam. E a chuva? Torrencial! Era o que? Complô para que nem em casa eu chegasse? Fiquei mais alerta em ver que pessoas saiam do hotel...e eu ali ...bloqueando o caminho. Será que se eu me escondesse atrás da pilastra eles me notariam?
Pensei por exatos dez segundos.
Ok, certo...eu era magra mas nem tanto.
O som dos passos ficava maior à medida que os segundos passavam. Que droga, eu sabia que eu teria que zarpar rápido. Olhei pro céu, ainda insuportavelmente branco. Há, a chuva ta passando né? Ainda olhei uma última vez para a porta da entrada. Eu podia ver um homem insuportavelmente elegante acompanhado de uma loira alta. E linda. Tudo que eu não era. Pior agora. Foi então que relancei um último olhar para o casal antes de me lançar a chuva e pegar o primeiro táxi que passava.
**
Ele me roubou. Isso é fato. Eu saí xingando o carinha baixinho e gordo do táxi. E o que ele? Me mostrou o dedo. O do meio. Será que eu já mencionei que hoje não é – definitivamente – o meu dia? Pois é. Minha economia foi reduzida pela metade naquela corrida de táxi. Deus, minha casa ficava a vinte minutos do hotel. E deu aquela soma exorbitante? Não é possível. Em tempo algum. Só no meu, é claro.
Fui resmungando o caminho até meu apartamento, procurando a chave em minha bolsa. Entrei em casa, num suspiro aliviado. Finalmente meu lar...finalmente quente. Eu mal tinha tirado meu sapato ensopado quando a campainha tocou. Olhei e era meu senhorio.
Droga.
Abri a porta, com um meio sorriso nos lábios. O bafo de ácool e fumo chegavam até mim, retrocedi um passo quando meu estômago deu voltas. Argh, que cheiro horrível.
– Olá, Jake.
– O Aluguel? – Ele falou, numa voz mansa.
Mordi os lábios, sem saber o que fazer. Então lembrei da minha bolsa. Minha última economia.
– Aqui – entreguei, e ele deu um sorriso, avançando um passo, quase entrando em meu apartamento. – Você sabe que poderia não pagar nada né?
Ele vivia insinuando isso. Hun...quem sabe no dia da minha morte? Não, não, meu cadáver ia sofrer.
– Prefiro pagar, Jake. – suspirei – Tenho que entrar. Muitas coisas pra fazer.
– Claro. – ele espirrou...na MINHA CARA. Oh meu deus, eu teria que usar o desinfetante agora. – Até mês que vem...
Fechei a porta. Mês que vem. É. Eu tinha que arranjar um emprego para ontem.
Tirei o resto da minha roupa e fui para debaixo do chuveiro, tentando não pensar em nada. Em absoluto. Em nada. Nem no Mike...nem no emprego...em nada. Era meu tempo. A água era quente e trazia um alívio imediato para meus músculos. Peguei o sabonete e esfreguei com força pela minha pele. Eu me sentia suja depois de tanta água que levei hoje.
Passei as mãos devagar pelo meu cabelo, que escorria pelo meu ombro, quase chegando a minha cintura. Tinha gastado um dinheirão para arrumar o cabelo e ...meia hora depois ele já estava desmoronando pela chuva.
Então, naquele momento eu fiz três resoluções: Primeiro, sempre levaria um guarda-chuva toda vez que saísse. O tempo na América era doido mesmo. Segundo, da próxima vez que eu fosse arrumar meu cabelo eu tiraria uma foto. E terceiro, nunca mais namoraria homens bonzinhos. Eles eram chatos...e possivelmente...guys. Argh.
Saí do banho enrolado no roupão e com outra toalha ao redor do corpo. Fui na cozinha preparando um sanduíche rápido. Eu tinha perdido meu almoço para fazer o cabelo. Meu estômago roncava, reclamando da falta de comida a um longo tempo.
Bati na barriga, rindo e abrindo a geladeira. Tudo ficou pronto rápido demais. Sentei na mesa, pegando o suco de laranja. Bebi o primeiro gole e fiquei verde. Que droga! Coloquei o suco pra fora. Então, fui olhar a data na embalagem. Fiz uma careta com desgosto. Porque eu não estava surpresa? O suco tinha passado da validade. Joguei no lixo e me contentei com água mesmo.
Acho que adormeci, pois acordei depois com uma dor nas costas por ter ficado no sofá e um som estridente de um telefone tocando.
– Alô?
– Kristen! Você não vem?
Brit. Já mencionei o quanto ela é insistente?
– Ir pra onde?
– Minha casa, oras! Você precisa conhecer o ...
– Argh! – Gritei, a interrompendo – Nada disso! Não vou nada...Não quero conhecer ninguém...
– Mas vocês combinam...eu tenho certeza...
Eu ri.
– Nada de homens...
– Sabia que pode criar teia de aranha se ficar sem usar muito tempo, amiga?
– Oh meu deus! Quem é você e o que fez com a minha melhor amiga?
Ela gargalhou do outro lado.
– Nada disso.
– Como nada?
– Não seja paranóica. – Brit deu um gritinho, rindo- Consegui remarcar sua entrevista para amanhã, às 9 da manhã. Pode não se atrasar, por favor?
– Claro, claro...e a culpa nem foi minha. Foi a chuva.
– Não vou ousar perguntar como você conseguiu isso...
– Nem tente...
Gargalhei, desligando o telefone.É claro que ela não traía o marido. Brit amava muito o Sam para isso.
Então, era isso. Amanhã. Nove da manhã. Eu tinha que arrumar esse emprego. Nem que vendesse minha alma pra isso... Ok, nem tanto.To louca. Liguei a TV e fiquei muda quando vi o tal cara do hotel na tele do aparelho. Ele era realmente lindo demais. Foi tão rápido que mal entendi sobre o que falavam. Parecia algum tipo de negócio que eu não fazia idéia do que era. O cara parecia ter muito dinheiro.Ele podia me dar algum né? Então gargalhei, em frente da TV. Que ridículo, Kristen! Desliguei a televisão, tranquei a porta, apagando toda a luz.
Amanhã seria um novo dia. Quem sabe eu não acordasse com sorte e arranjasse o emprego? Então, tudo ficaria perfeito...ou quase perfeito.
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