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Jogo da Verdade - Capítulo 10


– A caixinha Kristen.
– Como quiser.

Afastei-me dele e fui procurar dentro da minha bolsa a maldita caixinha que a Em me mandou entregar a ele. Ela estava bem no fundo e tirei de lá, trazendo consigo as cartas da Em e uma foto nossa que voou, parando aos pés dele. Rob se abaixou e pegou a foto.

– Essa é você e a Emily?
– É.
– Está muito diferente.
– Que?
– Diferente, Kristen.



Dei alguns passos e me sentei do lado dele com a caixa na minha mão e olhei a foto. Foi impossível não suspirar. Não lembrar daquele dia.

Impossível não lembrar como éramos felizes com uma vida simples. Era apenas vida sabe? Sem mortes. Sorri e peguei a foto dele.

– Estava mesmo. Foi meu último aniversário. Era tudo tão...bom. Tinha acabado de mandar a carta para tentar entrar aqui nessa faculdade. Não que eu fosse realmente pensar em entrar algum dia numa faculdade. Eu só...mandei.

Balancei a cabeça, tentando não lembrar de como era minha vida antes. Antes do Rob. Antes da minha irmã morrer. Antes de tudo.

– Sua caixa. – e estendi o objeto a ele.
– Obrigada.

Ele abriu a caixa e tinha um papel. Um simples papel com alguns nomes escritos.

– O que é isso?
– Um endereço. Alguns.
– É importante?

Ele me olhou tão sério e tinha a impressão que Rob estava tentando digerir tudo.

– É, Kristen. Tem certeza que quer saber realmente tudo?
– Claro, Robert.
Ele respirou fundo. Senti meu corpo tremer.
– O Michael era namorado da sua irmã sendo que eles o seguiram.
–Que?
–Deixa eu começar assim. Há algum tempo atrás umas pessoas mataram nossos pais e seqüestrou nossa irmã.
–Nosso?
–O Michael era meu irmão.
Então ele tinha perdido alguém também.
– Veja, há 3 anos atrás nossa família foi atacada por contrabandistas e mataram nossos pais, levando nossa irmã recém –nascida. Ela tinha apenas alguns dias de vida quando a levaram.Nós passamos esses três anos tentando descobrir onde ela estava...ai o Michael teve uma pista...
– Na minha cidade.
– É. Brigamos quando ele partiu. Sozinho. Ele estava com a razão, Kristen. Na sua cidade, ele descobriu a localização dela.
– O papel na caixa. – fechei os olhos, não conseguindo encarar a dor nos olhos dele.
– É a localização dela.
– Então...como tudo aconteceu? – Deixei escapar uma lágrima – Como nossos irmãos morreram desse jeito, Rob?
– Eles descobriram e foram atrás do Michael. Mas antes disso, a Emily descobriu que você viria para essa faculdade. A mesma que a minha. Então, eles tiveram a brilhantes idéia de entregarem a você a caixa com o endereço.
– Você disse que me conhecia.
– Eles me mandaram uma foto.
– Fazia parte do plano tirar minha virgindade?
Ele riu, amargo.
–Não meu bem. Só que ao te ver foi irresistível. Fui te procurar naquele noite para conversarmos mas te encontrei seminua e não pude evitar de tirar uma lasquinha.
–Lasquinha, Rob?
–Não era minha intenção transar com você.
–Não?
– Não. Só que ao te sentir tão molhada...tão rendida... e Deus, Kristen, nunca tinha transado com uma virgem. Não poderia...
–Perder a oportunidade?
–É. Algo assim.

Fiquei sem silêncio por alguns segundos quando me lembrei de algo.

–Onde ele está?
–Que?
– A pessoa que matou a Emily!
Rob sorriu tristemente e senti um aperto no peito em vê-lo tão triste.
–Morto.
Sufoquei um grito na garganta.
–Você...você...o matou?
–Claro que não. Não sou tão ruim assim, Kristen.
–Eu não...
– Não se dê o trabalho. Sei que você me odeia. Por tudo...

Não...eu não o odiava. Não era isso. Espremi meus olhos quando senti o peito no peito de novo.

– Quem o matou?
– Na prisão. – Ele riu. – Logo depois de ter matado a Emily e o Michael ele fugiu mas foi pego pela polícia que estava na cola dele a tempos.

Agora sim eu chorava livremente.

– Se...se...tivessem chegado algumas horas antes...os dois...- solucei. – estariam vivos.

–Eu sei.

Como ímãs nos aproximamos e eu o abraçava pela cintura. Precisava do seu calor.

–Rob...
–O que?

Acariciei sem rosto. Seria duro não vê-lo nunca mais. Tremi com a sensação de vazio que me percorreu. Eu precisava de mais uma vez. Uma única vez antes de partir.

– Faz amor comigo?
– Kris, isso não é...
– Shiii...eu sei. – Tapei sua boca com meus dedos. – Não precisa falar...eu só quero uma vez...assim.
– Vai ser muito pior... Depois.
– Não quero falar mais disso. Só faz amor comigo. Por favor.

Eu podia ver em seu rosto a batalha interna onde isso nos levaria. Ao fim, com certeza.

Seu toque era calmo, mas minha pele queimava. Suspirei de encontro ao seu pescoço, com calma. Era com estar em casa, estranhamente. Rob sussurrava palavras no meu ouvido que me fizeram arrepiar-se. Finalmente seus lábios tocaram nos meus e eu gemi baixinho, angustiante. Nossos movimentos se sincronizavam, como se um esperasse os outros. E foi um choque quando nossos corpos nus se encontraram. Fogo encontrando fogo. Toque gerando toque.

Era uma sensação de plenitude. Escorreguei de vez para dentro dele. Rob se movia devagar, como se saboreasse cada momento. Cada sensação.

O gozo e a sensação de preenchimento vieram rápidos.
Foi esperado e desejado.

O sentimento que me inundou depois, ao contrário, de tudo era desconhecido. Foi como se nos tocássemos pela primeira vez hoje, sem barreiras, sem segredos. Sem mistérios. Só homem e uma mulher que se encontravam e se completavam no seu mundo. E em toda parte.

Rob adormeceu em alguns segundos. Eu continuava de olhos fechados, virei de lado e chorei, silenciosamente, como se as lágrimas pudessem varrer toda a angústia e desespero que me acometia depois de tudo.

Eu queria a verdade não é? Eu tive a verdade.
A verdade esclarece. A verdade nos faz ver outras coisas. A verdade podia ser muitas coisas. Mas não era.

Eu me sentia pior que no início. Imensamente pior.
Olhei para última vez o Rob deitado na cama, ressonando tranquilamente em um sono profundo.

Era estranho nunca mais vê-lo. Coloquei minha pequena mala nas costas e fechei a porta, deixando esse novo mundo pra trás. A sensação de aperto no peito continuou por todo o tempo da viagem.

Então, eu estava de volta. Em casa.

***

– Mamãe... Dá pra parar?
– Vai ficar nisso até quando?
– Sei lá. Não to afim.
– Kristen! Pelo amor de deus... Seis meses! Você voltou há seis meses e ainda está nessa... o que vai ser quando...
– Mamãe! Não gosto de falar nisso. Por favor!
– Por favor? – Ela gritou indignada e levantou as mãos. - Você está se comportando como uma criança.

Seis meses. Eu estava de volta a seis meses e nenhuma noticia. Nenhuma noticia dele. Do Rob. Não que eu esperasse depois da maneira sorrateira como sai no meio da noite. Será que tinha encontrado a sua irmã? Meus olhos se encheram de lágrimas quando me lembrei do seu rosto triste contemplando o endereço dela. Minha mãe começou um discurso de responsabilidades e me afastei até o telefone.

Eu precisava saber.

A quem eu queria enganar? Sua voz. Eu queria ouvir. Queria saber se tudo estava bem. Se ele estava bem. Que sua vida corria bem. Ao contrário da minha. Que estava uma merda absoluta.

Droga, eu tinha ficado... – Mordi os lábios, evitando que as lágrimas jorrassem dos meus olhos.

– O que está fazendo, Kris?
– Vou ligar.
– Vai contar?
Olhei com raiva e bufei.
– Claro que não, mamãe. Que estupidez é essa?
– Estupidez é o que você anda fazendo. Você pensa que eu não escuto seu choro de madrugada?
– Vou tentar chorar mais baixo...se te incomoda.
– Kristen! Não fala assim...só me dói ver que você se apaixonou por esse cara.
– O irmão do namorado da Em.

Ultimamente falar o nome dela já não doía tanto. Com o tempo, tudo voltava ao seu lugar. A sua origem. Eu só não era a mesma. Talvez nunca mais fosse.

– Não quero ver você se humilhando.
– Não vou fazer isso. Só quero saber...- engoli em seco – se tudo acabou bem.
– Ele teria te ligado se algo desse errado.
– Não do jeito que eu saí de lá. Me deixe sozinha...por favor, mamãe.
– Vou. Claro que deixo. O...o...Tom perguntou de você.
– Diga que estou bem.
– Kris, ele poderia as...
– Não. Nunca.
– Você deveria pensar melhor. Não é só ...
– Não insista.
– Ok. Vou indo. Ligue para seu fantasma.
– Vou ligar.

Eu ia. Claro que iria. Só precisava me convencer que o telefone não me morderia.

“Não seja idiota! “ Minha consciência gritou comigo. Resignada, peguei o telefone e disquei seu número de celular.

Um toque.
Dois toques
Três toques.

Meu coração batia acelerado e minhas mãos suavam em expectativa.

Quarto toque.
Quinto toque.

Ok, ele deve ter mudado de número. Seis meses é tempo demais.

Sexto toque.

–Alô.

Era ele! Sua voz inundou meu corpo como se eu levasse um choque.

– Alô? – ele repetiu. Agora é só falar, Kristen.

Fale.
Fale.
Alguma coisa.

– Não estou com paciência para trotes quem quer que você seja.

Respirei fundo. Era agora... Ou nunca.

– Rob? É a Kris.
Silêncio.
– Você ainda está aí?
– Kristen? Que surpresa!
–É, eu também.
–Como?
– Nada não. V-voc- cê está bem?
– Estou. Sua voz está estranha.
– Não é nada.Eu só queria... – te contar uma coisinha – saber como sua irmã está.
– Ela é linda! – Sorri comigo mesma com seu tom de devoção. – É tão pequenininha! Consegui a guarda dela a duas semanas. Esses seis meses foram uma loucura.

Pra mim também, Rob. Não sabe o quanto.

– Que bom que você conseguiu ficar com ela.
– Como você está?
Enorme.
– Bem.
– Você está estranha.
Eu ri. Tive que rir.
–Não é nada, Robert. Só estou normal. Você conheceu uma versão de mim que nem eu mesma sabia que existia.
–Eu sinto sua falta.

Oh, merda. Ele podia ter falado qualquer coisa. Eu suportaria quase tudo sem desabar. Menos aquilo.

Menos ele dizer que sentia minha falta. Eu tinha sentido uma dor insuportável nesses seis meses. Nem que eu quisesse eu podia esquecer.

Nunca poderia.

– Você sentiu minha falta?

Merda duas vezes. Nesse exato momento o bebê que crescia no meu ventre resolveu dar um chute. Dar sinal de vida. Foi impossível me controlar. Um choro convulsivo brotou da minha garganta e larguei o telefone em pânico. Minha mãe entrou no quarto essa hora e me abraçou. Eu dormi sem pensar em mais nada.

..

.

...
Hoje eu acordei mais cedo e disposta a fazer dar certo. Fazia exatos sete dias daquela lástima de telefonema que dei para o Rob. Suspirei, acariciando meu ventre protuso. Eu ficaria bem pelo bebê. Mal ou bem era uma parte dele. A vida tinha de continuar de um jeito ou outro.

–Onde você vai? – Minha mãe perguntou quando eu sai do quarto, quase correndo.
– Passear por aí.
– Kristen...
– Só vou andar um pouco – e enfrentar alguns velhos fantasmas.
–Cuide-se.

Eu irei. Sorri e fiz meu caminho direito. Em mais de seis meses, era a primeira vez que eu voltaria pra lá. Desde a morte dela. A trilha continuava igual. Como se o tempo não tivesse passado. Cheguei até a relva e aspirei o ar úmido. As lágrimas vieram mais fáceis daquela vez.

Não que eu pudesse esquecê-la. Jamais. Era minha irmã e sempre me lembraria com carinho do seu sorriso, da sua vida, dos seus olhares. Bocejei, sentindo o sono chegar. Encostei-me na árvores e me deitei, cobrindo-me com a coberta que eu havia trazido. Fazia frio.

Fazia calor. Abri meus olhos e pensei estar sonhando. Seus olhos azuis me encaravam. A ilusão era tão linda.

– Kris?

Ops. A ilusão falava.

– Você está bem?
 Ele estendeu a mão para que me ajudasse a  levantar. Recusei.
–Estou bem aqui... O que está fazendo, Robert?
– Eu...eu vim ver você.
– Por quê?
– Eu senti sua falta.

Oh, merda, aquela frase de novo. Ele se sentou na minha frente.

– Depois de seis meses você lembrou disso?
–Eu estava ocupado.
–Ocupado pra lembrar de mim?
–Você fugiu.
–Verdade. – suspirei, fechando os olhos. – Eu não poderia continuar lá. Depois de tudo.
– Algum dia você poderia olhar pra mim e não me odiar?

Até esse instante eu encarava o solo em baixo de mim, mas sua última frase me fez o olhar melhor.
–Não.
–Entendo.
– Ei, você acha mesmo que eu poderia te odiar, Rob?
–Não foi por isso que fugiu?
–Não. Eu precisava superar a morte da Emily. Precisava superar tudo.
–Então...porque você chorou quando falou comigo?
Sorri.
–Eu ando meio sensível ultimamente.
–Sensível? Kristen! Eu ouvi seu choro.
Minha garganta travou.
–É. Eu chorei um pouco.
Ele passou os dedos pelo meu rosto e senti arrepios pela coluna. O bebê se mexeu.

O meu bebê. O dele. O nosso. Filho.

Ele estava aqui. Eu tinha que contar, mas era como se algo travasse, me impedindo de falar qualquer coisa que fosse.

–Você poderia gostar um pouquinho de mim?
Sorri.
–Gostar, Rob?
–É, a gente ...podia tentar sabe?
–Tentar?
–Ficar junto.
–Oh... ficar junto significa...que você quer....nós...
–Não olhe assim pra mim.
–Você está me pedindo pra ir pra cama com você...?
– Não?
Meu humor variava entre decepção e algo assim.
– Não necessariamente – ele sorriu.
– Hun...então...
– Ficar junto, Kristen. Namorar...sei lá.
–Oh.
Abri e fechei a boca três vezes, tentando ensaiar algo a dizer.
– Você poderia gostar um pouco de mim?
– Rob...gostar...um pouco?
Sorri. Meu coração transbordava e uma alegria sufocante me inundava.
–É.
–Rob...você não entende? Eu amo você. Digamos...bem...eu gosto um pouquinho de você também.
Sorri. Ele beijou minhas pálpebras.
– Eu acho que também gosto um pouquinho de você, senhorita Kristen.
– E eu acho que tenho uma pequena novidade para te contar.

FIM

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