CAPITULO 08
“Só quem está disposto a perder tem o direito de ganhar. Só o maduro é capaz da renúncia. E só quem renuncia aceita provar o gosto da verdade, seja ela qual for. Renunciar à onipotência e às hipóteses de felicidade completa, plenitude é tudo o que se aprende na vida, mas até se descobrir que a vida se constrói aos poucos, sobre os erros, sobre as renúncias, trocando o sonho e as ilusões pela construção do possível e do necessário, o ser humano muito erra e se embaraça, esbarra, agride, é agredido. Eis a felicidade possível: compreender que construir a vida é renunciar a pedaços da felicidade para não renunciar ao sonho da felicidade.” (Artur da Távola)
Seria tão mais fácil esquecer. Fácil demais. Por uma ou duas vezes eu pensei nisso. Esquecer e começar tudo de novo. Mas nem sempre o fácil é a melhor escolha. Nada pra mim tinha sido rápido e fácil. E eu não começaria agora. Engraçado como algumas palavras perdem o sentido ao longo do tempo e outras – tão banais – ganham um sentido gigantesco.
O som do Desculpe ainda ecoava em meu corpo enquanto o Rob me ajudava a nos sentar na areia fofa do seu lado. Ele não tinha me largado nenhum minuto. Arfei, Olhando para o mar escuro, a onda ia e voltava – ao seu ritmo, tal como ditava a mãe natureza. O mar e o barulho dele me fascinavam desde criança. Nesse momento lembrei da Julie e de que ela nunca pôs os pés na água. Ela nunca tinha visto o mar. Amanhã seria a primeira coisa que faríamos.
Ver o mar.
– O que eu posso falar? Que eu fui infantil? Medroso? Eu fui. Mas nada disso ia adiantar ia? As palavras não tem o poder de voltar no tempo...
– Não...Não tem, Rob.
– Quando você me falou que estava grávida...Nossa! Foi tudo tão confuso! Caramba eu lembrava de você naquela noite...Foi tudo tão bom. No final você acabou ficando tudo. Com toda a responsabilidade sozinha.
– Rob...
– Espera... Sabe? Quero contar uma coisa. Uma semana depois que você partiu com aquele dinheiro eu tentei te ligar. Eu suava como um burro...No terceiro toque eu desliguei. Sou um completo covarde...
– O que eu posso falar? Eu...Foi tudo tão...tão difícil...Ainda é. Eu nunca consegui entrar em faculdade nenhuma e desde então vivo assim...aceitando trabalhos menores...
– Você era tão menina...e mesmo assim foi tão mais forte...Tão sem medo...
– Oh meu deus...Do que está falando? Eu tenho medo até hoje... Medo dela cair...De engolir água demais...de sua alergia à chocolate! Deus! De tantas coisas... De não conseguir ser uma mãe que ela espera... Mas mesmo depois de tudo isso...Eu não arrependo nenhum segundo de ter jogado o endereço daquela clinica no lixo...
– Eu sinto muito mesmo. Minha mãe também estava tão mal naquela época e essa noticia provavelmente ia deixa-la ainda pior.
– Eu não acho que sua mãe teria achado melhor você ter me expulsado. Ter me ignorado e me dado dinheiro para tirar nosso bebê...
– Ela nunca concordaria com isso.
– O que você faz aqui Robert? – perguntei de supetão. Ele me olhou meio assustado pela mudança brusca de assunto. Eu não queria mais falar coisas que me fizessem tão mal. Relembrar àquele dia fatídico definitivamente não era bom.
– Como?
– Você não estava trabalhando em Londres?
Ele suspirou leve, trincando os dentes, olhando para o outro lado.
– Me demiti – falou, dando de ombros.
– Por que?
– Problemas familiares.
Entendi. Ele não queria falar desse assunto. Pelo menos não comigo. Estendeu-se um longo silêncio por angustiantes minutos que se arrastavam. Foi ele que decidiu recomeçar.
– Você vai me deixar vê-la um dia?
– O que?
– A garotinha...
– O nome dela é Julie. – suspirei – Posso ser sincera?
– O quanto quiser...
– Não. Você não pode vê-la...nunca. Eu...eu entendo – em parte – que você foi um covarde. Que queria se livrar do problema. Que teve medo. Que não queria estragar sua vida...Eu realmente compreendo...Mas isso não muda nada. Eu não te odeio...Só não acho... Porque não fazemos assim? Esquece ela. Será como se ela nunca tivesse existido...Como se realmente eu tivesse feito o aborto que você me pediu.
– É meio difícil esquecer que tem alguém circulando por ai do seu sangue e você não sabe nada sobre ela...
– Quer saber? COM- VI - VA COM ISSO! Até hoje ela viveu sem um pai. Você não faz falta a ela.
Isso era uma tremenda mentira.
Ele entreabriu os lábios – talvez inesperado com o meu ataque. Mas nada foi dito. Seus olhos caíram perto da minha bolsa que tinha se aberto. Ele abaixou-se e pegou o celular que tinha escapulido. Não fui tão rápida. Rob pegou o aparelho, contemplando por longos segundos da Julie de alguns meses atrás.
– Ela tem meus olhos – Ele sussurrou antes de me devolver meu celular.
– Malditamente tem.
– É linda.
–E sim. Linda, trelosa e muito esperta. Tem uma estranha mania de colecionar brinquedos velhos. – Me vi confessando e Rob abriu um pequeno sorriso
– Eu fazia isso também. – ele falou baixo.
Rob então agarrou minha mão forte.
– Me deixe vê-la...Só...Nem que seja de longe. Alguns minutos não vão mudar a vida dela. A Julie não vai me ver.
Eu estava prestes a neguei novamente quando lembrei de uma conversa nossa de alguns meses atrás. Sobre quem seria o pai dela. De como ela ficou triste. Deus! Eu tinha mesmo esse direito de exclui-lo? Minha cabeça parecia que ia explodir. Como ele podia não ver que tudo já estava mudado?
– Por favor... Eu fui um idiota estupido, Kristen...Me deixe – ao menos – ter a oportunidade de consertar um pouco isso.
Idiota. Minha própria mente parecia me xingar enquanto as palavras se formavam entre meus lábios.
– Minha filha não é cobaia. Não se aproxime. Não fale com ela. Só...veja de longe. Alguns minutos...
– Qualquer coisa.
**
Eu amarrava o pequeno biquíni da Julie quando a minha mãe trouxe uma sacola com água e lanches. Peguei o protetor solar, passando na sua pele exageradamente branca. Ela riu, enquanto eu passava pela barriga. Prendi seus cabelos no alto da cabeça. Logo uma bola peluda estava entre nossos pés.
– Bing! – Ela se abaixou alisando a sua cabecinha minúscula – Nós voltamos logo. Ela lambia sua mão e Julie ria.
– Vamos bebê.
– Tchau vovó...vovô... – Ela correu, indo abraçar os dois. Meu pai tinha conseguido sai do quarto e abraçou. Ele ainda estava bem ruim mas eu não conseguia pensar em como seria quando ele se fosse. A Julie e suas bochechas rosadas vieram ao meu encontro. Ela parecia estar mais feliz ali...mais livre. Ela parecia estar bem em ficar perto de alguém da família dela. Do seu sangue.
De novo lembrei do Rob.
O pai dela.
Ele errou muito mas parecia querer consertar isso. Eu estava fazendo o certo ao manter os dois afastados.
– Que praia vocês vão? – Minha mãe perguntou.
– Nicholas Canyon County Beach.
– É bonita. Calma. A Julie vai gostar...
– Vai, vai sim... - Mexi os cabelos – Vamos?
– Hun...Tá... – Ela olhou em volta. – ESPERA! Mamãe...o Senhô Ulso...VOU PEGLAR!
– Julie...- Bufei, a vendo correr para dentro de novo.
Então era só eu e minha mãe agora.
– E então, como foi seu encontro?
– Não foi encontro. Nós...Foi bem difícil na verdade...
– Imagino...Mas o que ele queria?
– Se desculpar... E ver a Julie...
– Isso não é bom?
Olhei enviesada para ela, meio que bufando.
– Eu não sei... – Balancei a cabeça como se reorganizasse meus pensamentos – Eu disse que ele podia ver a Julie hoje...de longe.
– Oh meu deus!
– Que?
– Não seja ridícula e deixe esse ressentimento para trás. Ele errou a alguns anos atrás mas está tentando consertar. E ela ainda é tão pequena...Merece ter um pai ao lado dela. Não negue isso a Julie só porque você está com raiva do pai dela.
– Eu não est...
– Está sim! Você está com raiva porque ele está sendo um homem agora e isso é como uma bofetada na sua cara. Porque você queria que ele tivesse agido assim antes...quando você estava grávida e quando você mais precisava.
– Pensei que você fosse minha mãe.
– Eu sou, meu bem. Quero o seu bem...e da minha netinha. Vocês duas tem que seguir em frente. De alguma maneira.
Eu apenas balancei a cabeça. Ela tinha razão. Não foi só porque ele agiu como um estupido comigo que eu tinha o direito de privar a Julie de um pai.
É isso.
Eu ia deixar eles se conhecerem.
E nós seguiríamos em frente.
E o Rob seria apenas isso...O pai da Julie.
É tão fácil a gente se enganar.
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Meu Deus...
ResponderExcluirEssa fic é simplesmente fantástica, como todas as outras, as esta tem um brilho especial a meu ver. Jully é uma fofora, espero que a Kris deixe ele ver a menina ou melhor que perdoe ele.
Parabéns pela excelente escrita e pelas historias. eu sei que o tempo é apertado, por isso OBRIGADA por arranjar uns minutos para algo tão prazeroso de ler e acompanhar ;D
ps: increvi o meu email para receber actualizações, mas não recebo :S, podes ajudar-me?
Bjo