CAPITULO 4
Todos os dias Deus nos dá um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes. O instante mágico é o momento em que um "sim" ou um "não" pode mudar toda a nossa existência.
Antes mesmo que eu colocasse a cabeça no travesseiro, eu já sabia o que faria amanhã. Certas coisas simplesmente eram insustentáveis. Não se passou nem dez minutos que tinha colocado a Julie na cama, quando ouço seu resmungo baixo, seguido do movimento do lençol e de seu corpo pequeno sentado na cama. Vi quando ela esfregou sua mãozinha gordinha nos olhos, piscando algumas vezes.
– Mãe?
– O que houve docinho?
Ela fungou, tentando controlar o choro aflito. Estava um pouco escuro, mas já imaginava seu rosto avermelhado e seus olhos brilhando.
– Vem cá...
Ela praticamente rastejou até minha cama, colocando a cabeça em meu colo. Seu corpo frágil estava ligeiramente trêmulo.
– O que houve Julie?
– Eu quelo domir...
– Então durma bebê. Fecha os olhos. Vem.
Deitei ela na cama e seus grandes olhos me encaravam, ainda entreabertos. Seu rostinho estava tenso. Alguma coisa não estava nada bem.
– Julie...Fecha os olhos amor...
Ela fechou e não durou nem dez segundos.
– Mamãe...
– Julie...
– Dói mamãe...
– Onde?
– Minha baliga...DÓI!
– O QUE?
Me levantei da cama, acendendo a luz de supetão. Parei um momento, vendo o corpo da minha filha curvado, sua camisola estava ensopada de suor e ela estava absurdamente vermelha. Aproximei minha mão de sua testa e pelava.
– Vem cá Julie.
– Não, mamãe...Dexa eu aqui.
– Vem bebê...Vamos tomar banho...ver se a sua febre vai baixar...
– Não quelo.
– Deixa de manha, Julie...Vem pro banho...
Ela ainda resmungou mas se deixou levar até o banheiro.
– Ta doendo mamãe...
– Eu sei...o que você comeu hoje?
– Eu... - seu lábio tremeu – Ah, mamãe...foi um tio lá...e deu chocolate pla todo mundo. A Julie gosta muito de chocolate mamãe...
– Eu sei que a Julie gosta...- Passei a mão na sua testinha quente – Mas não pode. A barriguinha da Julie – pousei sua mão lá e ela se retraiu – dói muito...e o corpinho fica quente, amor.
– Tava gotoso mamãe...
– Eu sei...
Me virei, pegando o antialérgico. O gosto era horrível, pela cara que a Julie fazia. Ela entronchou seu rosto na primeira vez que tomou. Então, nessas situações eu tapava seu nariz e ela não sentia quase nada.
– Argh! Não gosto disso...
– É pra dorzinha na barriga passar amor...
– Tá.
– Agora vamos tirar esse pijama molhado e tomar um banho fresquinho...
Ela levantou o braço e tirei sua camisola de uma vez só. Meus olhos se detiveram imediatamente numa mancha roxa perto da sua cintura.
– Ta friooooo...
Ela correu, agitada, para o chuveiro, dando pulinhos. Em outro momento, eu riria de toda àquela agitação. Era quase meia noite. Dificilmente a Julie conseguiria ir pra escolinha amanhã. Depois dessas crises, ela ainda acordava com um pouco de dor e muito manhosa.
– Pronto!
Ela ia correndo nuazinha e molhada até a cama, quando a segurei pela cintura.
– Hey mocinha! Calma! Vamos enxugar esse cabelo direito?
– Tá bom.
Peguei outra camisola branca, com umas florzinhas no babado da borda. Ela vestiu, choramingando ainda da dor na barriga.
– Já já passa, amor....- suspirei – Senta aqui pra pentear esse cabelo...enorme.
Ela riu fraquinho, tapando com ambas as mãos a boca. Puxei a franja um pouco para trás, que já caiu em seus olhos.
– Ta grande...
Vi quando seus olhos cresceram e a Julie puxou o cabelo.
– Ta não...
– Filha...ta sim...
– Não...
– Tá bom...Vamos dormir? A dorzinha melhorou?
Ela balançou a cabeça, sorrindo.
– Aham.
Julie pulou na cama, puxando o lençol até quase cobrir seu rosto. Sorri, abraçando seu corpinho e dando um beijo na sua testa.
– Boa noite, meu anjo...
– Boa noite, mamãe...
– Fecha os olhinhos...
– Já vou...mas...
– Que foi?
– Nada.
– Durma, certo...
– Ta.
Dei mais um beijo antes de me deitar na cama, tentando dormir. Meu corpo estava quebrado mas calmo. Sorri brevemente, lembrando da primeira vez que a Julie comeu chocolate e eu entrei em pânico. Fica tão fácil depois da primeira vez. O pânico ainda estava lá. Era tão irracional mas controlado.
Me aconcheguei melhor na cama e olhei pro lado. Meu celular tinha a luz acesa, indicando uma nova mensagem. Sem resistir, peguei o aparelho e cliquei em Ler.
De: Rob
Para: Kristen
Precisamos conversar.
De: Kristen
Para: Rob.
Sua mãe nunca lhe ensinou a não conversar com estranhos?
De: Rob
Para Kristen
Ela até tentava mas sempre fui desobediente. Você pode chegar mais cedo?
Mais cedo? Ele estava louco? Eu chegava às sete horas! Olhei de relance para a Julie e balancei a cabeça. De modo algum. Aquilo não ia dar certo nem em um milhão de anos. Suspirei, exasperada, digitando minha mensagem simples.
De: Kristen
Para Rob
Não.
De Rob
Para Kristen
Por que?
De Kristen
Para Rob
Eu não vou amanhã. Minha filha está doente.
De Rob
Para Kristen
É Grave?
De Kristen
Para Rob.
Tudo sob controle. Adeus.
O celular ainda apitou mais umas duas vezes mas eu o ignorei por completo. Mordi meus lábios, pegando o maldito aparelho entre as mãos e digitei a última mensagem antes de desliga-lo.
“Não fale como se importasse. Nunca se importou. É tarde demais para qualquer coisa”.
Apenas fechei os olhos, jogando o telefone na mesinha mais próxima, tentando dormir. Eu queria um sono calmo, sem sonhos...
“Sua pele é macia”
“Não é não...”
“Claro que é...” Sussurrei contra o seu peito. Já tínhamos vestido nossas roupas e nada pareceu mais interessante do que acompanhar o pôr-do-sol ali. Juntos.
Talvez tivesse sido em outra vida. Nada parecia tão longe como àquele dia em que nos deixamos levar por nossas sensações. Minha pele formigava ao lembrar de tudo. Em compensação, minha garganta fechava e ardia ao relembrar a proposta suja que ele tinha me feito àquela proposta suja.
– Mamãe?
Levantei a cabeça da revista que eu lia no consultório da pediatra. Sua mãozinha pequena repousava em meu colo mas seus olhos estavam lacrimejando.
– Que foi bebê?
– Não sou mais bebê mamãe!
– É claro que é, princesa.
– Eu tenho tles anos mamãe... – Ela mostrou três dedos indicando a sua idade - Não sou bebê...
Julie se levantou, indo pegar a sua bolsa que estava do outro lado da cadeira. Sua blusa subiu um pouco, mostrando a pequena mancha roxa que eu tinha visto ontem. Toquei com meu dedo a região e ela se retraiu.
– Ai! Isso dói...
– Você caiu?
Ela se manteve em silêncio.
– Julie. – Insisti.
– Não foi minha culpa... – Ela olhou para o chão.
– O que?
– Eu subi na escada para pegar o gatinho..a tia Jenny proibiu de sair da sala antes de terminar toda a tarefa...então terminei...eu tava com muta vontade de faxer xixi...e ele ainda estava lá mamãe...o gatinho...Subi na escada e ...BUM! A Julie caiu...- ela sussurrava agora – o gatinho pulou do muro e fugiu.
– Doeu? – Perguntei.
Ela apenas balançou a cabeça, tirando a franja dos olhos. Suspirei, olhando mais uma vez para seus cabelos e pensando na guerra que seria quando tivéssemos que cortá-los.
Nossa conversa acabou quando o nome da Julie foi anunciado e entramos no consultório da médica. Mesmo que a dor tivesse passado, a Dra. Ana sempre insistia que voltássemos lá depois de uma crise. A Julie a adorava. Só choramingava quando tinha que levar alguma injeção no bumbum.
Logo quando acordei liguei para a empresa, avisando que eu não iria. A Camille, secretaria do diretor, é que atendeu a ligação. Até no telefone sua voz me enojava.
–-
Após a consulta, deixei a Julie com a Martha e fui para a empresa. Precisava resolver toda àquela situação. Se fosse em outro momento, àquela proposta seria perfeita. Mas não quando o Rob seria o meu chefe. Seria algo insustentável. Peguei o elevador e fui direto para o departamento pessoal pedir a minha demissão.
Simples. Objetivo. Fácil.
Eu pus o pé para fora do elevador quando um garotinho e uma menina passaram correndo por mim, me derrubando.
Jenny! Luca! Parem agora!
Olhei para cima e vi um Rob vermelho e aflito, pegando os dois pela mão. Era quase idênticos. Se não fosse pelo detalhe de que ela era um amenina e ele um menino. Mas tinham os mesmos cabelos loiros, sardas nas bochechas e olhos daquele tom azulado.
Tão igual ao Rob.
Tão igual a minha Julie.
– Desculpa papai – os dois disseram bem baixinho.
– Peçam desculpa à moça.
Foi só então que ele me encarou. Seu rosto caiu quando me reconheceu.
– Kristen...
– Olá. – Me levantei, limpando a poeira inexistente na minha roupa.
– Desculpe moça. – os dois falaram e quase me fizeram rir.
Quase.
– Você...- sussurrei apenas, balançando minha cabeça, totalmente confusa.
– Venham cá. – Chamou os dois, pondo na minha frente – Esses são o Luca e a Jenny. Meus filhos.
Eu definitivamente não estava preparada para a avalanche de sensações que se abateram sob o meu corpo à menção de duas únicas palavras. Tudo parecia ganhar um novo sentido agora.
E isso só tornava tudo pior. Imensamente.
Call Our Toll-Free Number: 123-444-5555






0 comentários:
Deixe seu comentário ou impressão sobre o texto acima. Mensagens ofensivas serão deletadas.