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Pequenas Escolhas da Vida - Capitulo 20



Mude. Mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade'

(William Shakespeare)


Nunca na minha vida senti tanto medo do cair da noite. Eu só queria que a luz não fosse embora. Eu estava a mais de 24 horas sem dormir. Meus olhos começavam a pesar de forma quase insuportável. Tinha plena consciência da sua presença atrás de mim. Minha respiração era um descompasso angustiante. Era um dia depois do outro. A nossa conversa ao telefone ia e voltava à minha mente. Todo o tempo. Toda hora. Ninguém sabia o quanto era difícil enfrentar o mundo com novos olhos. Sim, eu estava conformada em tentar enxergar de outra maneira. Uma só minha.





Nós saíamos uma vez ou outra. A primeira vez foi terrível. Sair de casa parecia tão simples para quem pode enxergar cada passo do caminho.





Um dia depois do outro Kristen. Nada de passos muito longos.



Passei a freqüentar um Centro Especial para pessoas que agora enxergavam de outra maneira. Rob chegou em casa com um folheto na mão me falando desse tal lugar. O primeiro sentimento que me veio foi angústia. Meu coração apertou e soltei algumas lágrimas ligeiras. Mas depois entendi. Ele queria me ver prosseguir, só que às vezes Rob ia rápido demais e eu era apenas um bebê dando seus pequenos passos.



Mas acabei cedendo e uma vez na semana eu ia lá e encontrava pessoas com histórias parecidas à minha. Hoje completaríamos seis meses de casados. Meu dia tinha começado tão bem para terminar da pior forma possível. Ele me deu um beijo na testa quando saiu logo cedo. De alguma maneira estranha, nós estávamos convivendo bem apesar dos tropeços pelo caminho como da última vez que tentamos sair. O portão rangeu quando ele me deu um braço e atravessamos o jardim – eu podia sentir o cheiro fresco das flores nascendo na primavera – dando na rua. Eu apertei mais forte seu braço e fomos numa sorveteria perto de casa. Rob tinha insistido tanto e eu acabei cedendo.



Era estranho entrar em um lugar e ainda não saber como era. Que cores tinha. Como era a mesa. Que tipo de arranjo nos cercava. Se a comida se mostrava saborosa... Eram tantas coisas que me foram roubadas.



E era assim que eu encarava a minha situação.

Como um roubo.

Alguém tinha me roubado a luz, e desse modo eu deveria teria que continuar vendo na escuridão. Isso soava como o pior dos castigos.



Viver um dia após o outro era difícil. Mas eu tentava. Todos os dias.



– Como é aqui?



Ele parou de alisar a palma da minha mão e deu um suspiro baixo.



– Como assim love?



– A decoração. Como é?



Fechei os olhos atrás das lentes escuras do meu óculos de sol.



– Normal. O mesmo de sempre. As paredes são brancas...a mesa é rústica...sabe aquele marrom parecendo madeira? Há - ele fez uma pausa, se aproximando do meu ouvido – Tem um cara olhando muito para você Love. – Rob raspou a garganta – Acho que vou bater nele.



– Não seja estúpido – rolei os olhos – É claro que ele não está olhando pra mim...



– Ele está te secando....- Rob falou simplesmente. – É, Love, acho mesmo que vou bater nele...



– Não, você não vai. Você é meu marido certinho e não vai bater em ninguém. Vai ficar aqui me dando beijinhos enquanto tomamos sorvete.



Ele riu, mordendo o meu pescoço.



– Tá bom, Love. De que tipo você quer?



– Morango.







Era para ser o melhor dos nossos dias. Era quase hora do almoço quando eu senti um formigamento no canto dos meus olhos. Fui em direção ao banheiro e lavei o rosto com muita água. Esfreguei a região e encarei o espelho, mesmo não vendo nada. Era mania. Aspirei fundo e prendi o ar por alguns segundos para depois soltar lentamente. Repeti o processo por alguns minutos até estar calma. Não devia ser nada.



Eu geralmente adorava ficar sozinha em meu quarto enquanto o Rob saia para o trabalho. Diariamente estudava o brailler para começar a ler os livros que tinham lá no Instituto. Estar só me ajudava a pensar e trazia-me uma paz sem tamanho. Daqui a pouco Luci chegaria com minha comida e tudo estaria bem... Até que o Rob chegasse e comemoraríamos nosso aniversário juntos. Mas agora, deitada em minha cama eu me achava estranha. Como se algo fosse acontecer e estivesse esperando alguma coisa. Era uma tremenda tolice...



O som do telefone ecoou em meus ouvidos me acordando de um sono longe. Eu estava ansiosa e pressentia algo. Só não sabia se era algo bom...ou mal...



– Alô?



Silêncio.



– Alô? Quem fala?



Então um som abafado do outro lado.



– Não vai falar é? Vou desligar ok? Não to a fim de me fazerem de besta hoje!



– Desculpe. – A voz do outro lado era tremendamente baixinha. – Você é a Kristen?



– S..Sou.



–E você?



– e...Eu estive em seu casamento...



– E daí?



– Desculpe, menina! Eu não devia estar te ligando...Ele nunca vai me perdoar mesmo...



– ESPERA AÍ. NEM PENSE EM DESLIGAR!



– Quem é você?



– Meu nome é Claire.



– Certo, Claire, porque você foi ao meu casamento?



– Porque...eu queria vê-lo...eu... – Do outro lado da linha eu escutava um choro sofrido. Meu coração apertou. – T...tu...do é ...cuul...pa minha... Deus! Ele perdeu a direção quando me viu e o outro carro...Oh meu deus...você deve me odiar!



– Ei, o cara do outro carro estava bêbado! Você não tem nada a ver...



Ficou um silêncio estranho do outro lado da linha.



– É Claire não é?



– Sim...



– Porque me ligou?



– Eu pensei que pudesse me ajudar.



– EU? – Gargalhei de maneira triste – Eu não posso nem me ajudar...quanto mais você moça.



– Eu o amo sabe?



Ela estava tirando onda com a minha cara era?



– Eu realmente não quero saber disso ok? Eu amo o meu marido e não é nada legal você dizer que o ama também ok? Isso não é normal mesmo...



Ele riu baixinho.



– Não é nada disso. Eu o amo...porque ele é meu filho.



– A mãe do Rob morreu.



Ela suspirou.



– Não é verdade.



– O que você quer de mim? – perguntei exasperada.



– Eu só queria me encontrar com ele...uma vez só...e explicar...



– Eu não sei...



– Por favor! E se você me ouvisse? Aí depois você pensa em me ajudar ou não...



– Tá ta bem. Fale.





(...)





– Você dormiu?



Me acordei sobressaltada, sentindo o Rob beijando o meu pescoço.



– Está cansado? – Murmurei, me aninhando em seu colo quando Rob se sentou no sofá junto comigo. Como um raio a conversa de hoje de manhã veio à minha mente, mas eu a expulsei. Hoje era o nosso dia. A nossa noite. Era inacreditável que seis meses já haviam se passado. Lembrar do passado me parecia ser outra vida.



– Não...



De propósito ou não sua mão estava em minha cintura fazendo um calor familiar subir pelas minhas pernas. Deus! Eu precisava de algum tipo de coragem agora, heloou.



– Passou tão rápido...seis meses! É inacreditável...



– É mesmo. – Rob me deu um beijo na nuca e se levantou, me levando junto. Meu coração deu um pulo quando ele me abraço firmemente.



– O...o que está fazendo?



– Vamos jantar!



Ele me pôs sentadinha na cadeira. Eu ouvi algum tipo de barulho vindo da cozinha e foi inevitável não sorrir.



– Não está quebrando nada por aí não né?

Ele riu, raspando a garganta.



–É claro que não. Sente isso?



Uma aroma delicioso me fez deixar soltar um sorriso lento, como se eu estivesse apreciando todos os ingredientes daquela comida.



– Claro...o que é?



– Cassoulet.



– Ca o que?



– Cassoulet. – Eu tinha absoluta certeza que ele sorria nesse momento. Era quase como eu pudesse sentir. Ouvi um barulho de algo caindo em meu copo. – Vinho. – Rob esclareceu. – Então, o Cassoulet é um prato francês da região de Midi - Pyrénées e temfeijões, perna de cordeiro... toucinho... Abra a boca.



Ele colocou um pedaço em minha boca e praticamente derretei.



– Hun...delicioso. – Ele riu, me beijando rapidamente. – Não sabia que você era adepto da comida francesa...



Ele raspou a garganta.



– Eu nasci lá. Vim pra cá com 5 anos...quando a minha mãe...bem, ela morreu.



E lá estava ela lá de novo se infiltrando em nossa vida. A mãe dele.



– É delicioso. O que tem mais? Tem chocolate né?



Rob riu.



– Sim. Prova isso.



E o resto do jantar foi assim. Vinhos. Comida francesa. Rob me explicando os pratos...as tradições...Sobre a pimenta Espelette que é uma pimenta característica da região basca francesa. Ela fica pendurada – em forma de cachos – nas fachadas das casas da cidade de Espelette e seca devagar com o calor do sol.

Ele ria muito enquanto eu ficava surpresa com algumas coisas e acabava caindo na gargalhada. Há muito tempo nós não conversávamos assim. Só para o nosso prazer. Sem nada por trás. Só o prazer de estarmos juntos. Só nós.



– Você vai amar esse.



Eu acho que tinha bebido já um pouco demais. Sabe aquela pessoa fraca para bebida? Essa sou eu!



– O que?



– Abre a boca.



Eu abri, lambendo um pouco meus lábios. Eu acho que ouvi um gemido. Ou algo assim.



– E então...?



– Se chama La Poire Belle Helene.



– Oh meu deus! Esse chocolate...Hun...Nossa!



– É uma pêra. Tem chocolate, amêndoas grelhadas e sorvete de baunilha.



– Foi tudo perfeito...- Falei por fim, piscando. – Algum dia você vai me falar como fez tudo isso não é?



– Claro que sim! Agora...vamos dançar!





Dançar? Como eu podia dançar? Não...



– ROB!



Mas ela já me levava pela mão e colocava um CD.







http://www.youtube.com/watch?v=WOep-pUv-9g



É uma bela noite

Estamos à procura de uma besteira para fazer

Ei,querida

Eu acho que quero me casar com você



É o seu olhar?

Ou é esse seu jeito de dançar?

Quem se importa, querida?

Eu acho que quero me casar com você





Rob me abraçou pela cintura e repousei a cabeça em seus ombros, agarrando sua cintura com ambos os meus braços. Há quanto tempo não dançávamos. Ele era tão meu naquele momento e nada mais parecia importar.





Bom, eu conheço esta capelinha

na avenida

Nós podemos ir

Ninguém vai saber

Oh, vamos lá garota!

Quem liga se nós estamos bêbados?

Eu tenho um bolso cheio de grana,

podemos gastar.

Doses de Patron

E ta valendo, garota



Não diga não, não, não, não, não

Basta dizer sim, sim, sim, sim, sim

E vamos, vamos, vamos, vamos, vamos,

Se você estiver pronta como eu estou pronto









Minha pele se arrepiava conforme a música avançava. Eu mal percebi quando comecei a chorar e Rob enxugou minhas lágrimas.



– Shii...Não chora, baby...Não era para você chorar sabia? Eu amo o som da sua risada...



– Desculpa por ser essa chata ultimamente...



– Você não é...- Rob tocou meu nariz e uma descarga de adrenalina percorreu minhas veias.



– Sou sim, Rob... Mas prometo mudar... – Choraminguei, caindo num choro compulsivo.



– Está tudo bem sabe? Você está aqui. – Ele segurou minha mão, me levando até seu peito. – E eu sempre vou estar aqui...com você...sempre que quiser honey.



– Eu sempre vou querer você Love. Todo tempo. Mesmo estando assim. – Falei apontando para meus olhos.







Eu vou te arranjar um anel

que o coro cantará "oooh"

Então, o que você vai fazer?

Vamos só fugir, garota

E se nós acordarmos

E você quiser terminar, tudo bem

Não, eu não vou te culpar

Foi divertido, garota







– Eles são lindos...Você é linda.



– Rob...



–Eu te amo bebê...



Eu suspirei feliz, agarrando meus braços pelo seu pescoço e ele me suspendeu alguns centímetros do chão. Meu coração acelerava e eu estava toda arrepiada.



– Feliz aniversário de seis meses Love...- eu ri. – Agora me leva lá pra cima e a gente vai se divertir como se deve!



Rob gargalhou. Eu deu um pulo no seu colo, rodeando meus pés em sua cintura e subimos a escada em direção ao quarto.

Um comentário:

  1. Que bom que você gostou do meu poema Mude.
    Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.
    Que, aliás, não é de Clarice Lispector.
    Se puder, veja o poema todo, assim como o vídeo e o livro Mude, publicado pela Pandabooks e à venda nas maiores livrarias.
    Detalhes em http://Mude.blogspot.com
    Para o poeta, o importante é encantar o coração do leitor. Mesmo que este suponha ter sido encantado por Clarice Lispector.
    Flores e estrelas...

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