“A carência implica uma ausência dentro de si... A carência é uma força poderosa, capaz de criar ilusões poderosas. Ninguém pode realmente entrar dentro de você e substituir a peça que está faltando.” (Deepak Chopra)
– Algum dia você vai ter que voltar, Rob. – Falei, comendo mais um pedaço de carne. Ele fez um barulho esquisito enquanto deixava o garfo de lado. Espremi os olhos por detrás dos óculos escuros.
Ele estava irritado.
Já fazia quatro meses. Como podia ter passado tão rápido tanto tempo? Eu suspirei, tentando conter o bolo formado na minha garganta. Sempre era assim quando eu lembrava que estávamos casados.
– Minha presença de incomoda tanto assim?
– Não é isso. Só que faz quatro meses que estamos aqui juntos.
– Estamos casados não é? Geralmente é isso que as pessoas casadas fazem. Estar juntos.
– Rob, pelo amor de Deus! Faz esse tempo todo que você não trabalha!
– Você também não!
Como assim eu? Em que droga eu podia trabalhar estando assim? Pisquei meus olhos. Meus malditos olhos, sem função nenhuma, evitando chorar.
– Não seja ridículo. Eu sei meu lugar.
Ele suspirou fundo e levei um susto quando Rob me abraçou. Apenas me deixei levar pelo calor do seu corpo, me aconchegando perto. Eu gostava tanto dele e esse maldito acidente tinham estragado tudo.
Tudo.
– Kristen...
– Eu quero que vá trabalhar...
– Não vou deixar você sozinha...
– Eu ainda posso fazer muitas coisas sabe? Não é porque eu estou cega que eu vou ser uma inválida.
– Eu...
– Vá, Rob! É cedo ainda. Vá trabalhar.
– E se algo te acontecer?
– O que pode acontecer comigo aqui dentro? Nem escada tem, oras. Além do mais, quero ficar sozinha um pouco. Você está me sufocando, entende? Eu preciso respirar.
– Se você quer assim...Eu volto a noite.
– Eu quero assim.
Eu sabia que o estava magoando.
Eu sabia que me sentiria pior quando ouvisse àquela porta bater.
E eu me senti exatamente assim. Péssima. Ruim. Angustiada.
Eu sabia exatamente de tudo isso e mesmo assim o fiz.
Porque acima de tudo, eu sabia que precisa fazer isso.
De algum modo...eu apenas sabia.
Dentro de nós há sempre uma coisa que nós não conseguimos nomear e quando vemos, essa coisa nos define quem somos.
A todo momento, nós fazemos escolhas que nos fazem errar ou acertar. Escolhas que fazem nosso caminho ir por uma direção ou outra. Uma mínima ação hoje, tem conseqüências que não podemos prever.
Algum tempo depois que Rob fechou a porta, eu tateei o caminho até chegar em frente à televisão e desabei no sofá.
Peço-lhe neste instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos de fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado? Este vai ser nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz, significa: “Eu sobrevivi”. Abelhinha, personagem de Chris Cleave inPequena Abelha
Eu acho que abri e fechei minha boca algumas vezes. Eu tinha uma cicatriz. E não estava morta. De repente, eu percebi que estava viva.
E não morta.
Porra, eu tinha sobrevivido.
E talvez...só talvez, eu não fosse uma garota tão azarada assim...Talvez eu fosse só uma garota de sorte mesmo.
Meus ouvidos ficaram alerta e continuaram ouvindo o relato do garoto que era paralítico e ela tinham feito coisas tão incríveis! Por fim, deram o e-mail e telefone dele para contato. Quem sabe eu só precisasse de alguém que me entendesse...e sem pensar eu tateei meu celular em meu bolso e liguei para o número gravado em minha mente.
**
– Kris? Amor?
Ele beijou minha testa, enquanto eu acordava do meu sono profundo. Depois de falar com o Dave, acho que adormeci no sofá mesmo.
– Rob? Você já voltou?
– Já...já é noite...
– Normal. A minha secretária nova é terrível...
– Sinto muito.
– Tudo bem.
Ele sentou ao meu lado, pondo minha cabeça e seu colo enquanto fazia um cafuné gostoso em meus cabelos. Aquilo estava me dando sono de novo.
– A gente podia sair...
Eu engoli em seco algumas vezes, apertando minhas próprias mãos. Mal me dei conta quando meu coração disparou. O que eu podia fazer lá fora? Tudo parecia tão desconhecido para mim agora. Foi tão difícil no começo eu me movimentar pela minha própria casa. Não, eu não podia fazer isso.
NÃO.
– Não, Rob...- choraminguei – Onde nós iríamos? Não, não...eu não quero.
– Kris, amor, calma...tá tudo bem. Quem sabe outro dia?
– Obrigada. – Suspirei, já mais calma. Rob me apertou com mais força e os pelos dos meus braços arrepiaram. Nós nunca de fato consumamos o casamento. Ele tentou uma vez, quase um mês depois que estávamos em casa, mas eu o afastei. Como nós poderíamos fazer o que fazíamos antes sem eu ver nada?
Depois disso, quase não nos tocávamos. E ele tinha se mudado para o quarto de hóspedes para me dar mais espaço. Eu tinha tantas dúvidas na cabeça naquele momento.
– A Brit vai vir aqui depois de amanhã. Tudo bem?
Passei tanto tempo sem querer ver ninguém nem falar com ela. Aos poucos, fui atendendo suas ligações e ela contava das bagunças dos meninos. Ela nunca tocou no assunto sobre o acidente. Nunca. Em nenhum momento.
Era como se nada tivesse acontecido.
– Tudo.
Nós comemos uma macarronada que o Rob tinha trazido junto com o vinho. Nenhum de nós tocou no assunto sobre a nossa briga pela manhã. Ele já retirava os pratos da mesa, enquanto eu mexia nervosamente minhas mãos em meu colo.
– Rob?
– O que?
– Nada. – Respirei fundo. Pensando bem, era algo estúpido.
– Fala.
Nossa. Como ele tinha chegado perto tão rápido? Minha respiração estava alterada, enquanto ele segurava o meu resto me impedindo de sair correndo.
– Baby, você sempre pode falar tudo comigo...Fala.
– Eu...Dorme comigo essa noite? Eu sei que não temos mais nada disso...mas eu só – gaguejei. – Eu só quero alguém que me abrace...
– E esse alguém sou eu?
–É. É você Rob.
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