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Jogo da Verdade - Capítulo 1


– Porque não volta atrás, Kris? Você só tem 20 anos. Não deveria estar com tanta mágoa assim de alguém que nem mesmo conhece.

Era a minha mãe. Por ela, eu não faria nada. Encarei seus brilhantes olhos verdes no meio da sua face enrugada e triste. Ela definitivamente não era a mesma depois da morte da Emily. E isso já fazia longos 6 meses.

–Certas coisas têm de ser feitas, mamãe.

Peguei na sua mão, desenhando círculos imaginários na palma, tal como ela fazia quando éramos crianças. Eu e minha irmã Emily. Nós éramos efetivamente pobres. Não miseráveis... Apenas, sem dinheiro. Minha mãe tinha 50 anos, mas aparentava bem mais e suas mãos eram já muito calejadas pelo trabalho na roça.

É, nós vivíamos no campo. Aos 30 anos, mamãe engravidou de mim e dois anos depois da Emily. Nunca nos importamos de conhecer nossos pais. Como já deve imaginar, só tínhamos em comum a mãe. Nossos pais eram diferentes e...iguais. Ambos, viajantes. Eram apenas homens que passavam pela cidade e se interessavam pela Júlia. Nossa mãe. Ela era muito bonita há 20 anos atrás. O sol e o trabalho na inchada não a tinham castigado tanto.

Apesar do seu descuido em escolher parceiros, ela era uma ótima mãe. Do seu modo, claro. Júlia nunca tinha sido de muitos carinhos e afagos, mas comida e estudo sempre tivemos.
A minha irmã lembrava um anjo.Realmente ela não pertencia a esse mundo. Sabe aquela tipo de pessoa que Deus manda à terra por um breve período de tempo só para lembrar que ELE existe? Pois é. Emily era assim.

Pena que seu tempo foi breve demais. Antes mesmo de completar 18 anos ela se foi. De repente, era como se uma estranha escuridão se abatesse sobre nossa casa. Ela fazia uma falta enorme. Imensa.

E a lembrança da nossa última conversa permanecia muito vívida na minha mente. Tinha sido a quase 7 meses atrás.

–Kristen!

Virei a cabeça e vi uma minúscula pessoinha de cabelos loiros, compridos e olhos castanhos correndo na minha direção. Eu nunca conseguiria entender como ela descobria meus esconderijos. Eu tinha necessidades de momentos a os mas parecia que minha irmã não conseguia entender isso. Ou não queria apenas. Dava na mesma. Ela sempre aparecia. E eu sempre sorria. Era inevitável.

Como eu posso descrever o lugar que eu estava? Primeiro, você teria que passar por pelo menos duas trilhas tortuosas da Floresta Kinningan que dava em um pequeno rio. Na sua margem esquerda, havia uma entrada que dava literalmente em um buraco. Um túnel. No fim dele, abria-se uma relva brilhante cercada de árvores. O lugar era, no mínimo, abafado. Mas simplesmente eu amava aquele pedacinho de terra. Era um dos poucos lugares que me permitia ser eu mesma, sem farsa nenhuma.

Não pudi evitar sorrir quando a vi saindo do túnel toda saltitante e pousando, rápida, na minha frente. Ela arfava pelo esforço.

– A mamãe me contou a novidade – Seus olhos pareciam saltar da órbita e eu sorri de novo.
–Novidade?


Emily revirou os olhos, impaciente. Eu estava sentada, encostada na árvore. Ela veio engatinhando até mim e nossos rostos ficavam bem próximos.
–Você foi aceita!
–Há. – falei, num muxoxo. Levantei-me, limpando o rastro da terra na minha roupa. – Eu não vou.
–Como não vai? – Sua voz saiu tão fina que me virei para ela. OMG! Emily estava chorando.- Você tem de ir!
–Em...
–Nada disso, Kris! Você vai sim! Nem que eu tenha que te levar a força.

Quase solto uma gargalhada ao imaginar a Em me levando a força para qualquer lugar. Ela era tão pequena, que parecia uma criança.

–Porque você não vai comigo?
–Não fui eu que fui aceita na Faculdade.
–Mas eu poder...
–Não, Kris.
–Mas...
–Aqui é meu lugar, entende? Eu me sinto viva. Você sabe o que é sentir-se viva?

Não, eu não sabia. Esse era o problema. Meu grande problema. Olhei de novo e Emily abriua os braços, rodando ao redor do seu corpo, como se quisesse agarrar o mundo.

–Eu me sinto viva aqui. É uma conecção que com certeza não terei em nenhum outro lugar. E quando a gente encontra nosso...lar nos sentimos incompletas se fugirmos do nosso destino.

–Você não quer uma vida melhor?
–Vida melhor? – seus olhos faiscaram e pousaram no meu rosto como se tivesse para revelar um grande segredo. – Eu tenho uma vida que eu desejo. O que poderia ser melhor? Que sentido teria em procurar uma outra se essa me parece tão perfeita?

–Então eu nõ..
–Você vai – Ela falou, decidida e eu acabei me sentindo um bichinho acuado. – Eu já te pedi algo, Kristen?
–Nunca. – Realmente ela nunca tinha me pedido nada, nem quando éramos crianças.
–Pois vou te pedir uma coisa.
–Fale.- Ela pegou nas minhas mãos e não pudi evitar de sentir um arrepio de medo.
– Você vai aceitar essa vaga e ser feliz, ok? Aqui não é o seu lugar irmãzinha mas é o meu. E quero que procure uma pessoa. – Ela tirou do seu bolso uma carta e me entregou. – Não abra. Só quando chegar lá. Me promete?
–Claro. – Peguei a carta e enfiei no bolso da minha calça. – Vamos agora?
Ela sorriu e balançou a cabeça em negativo.

–Eu vou ficar por aqui...
–Ok. Você vai demorar?

Ela abriu um largo sorriso e recostou-se no tronco da árvore.

–Acredito que não. Ele vai chegar logo.
–Ele? – indaguei, surpresa – Você vai se encontrar com seu namorado... aqui?

Ela riu baixinho, fechando os olhos.

–Ele não é meu namorado. Só um amigo.
–Eu conheço.

Emily abriu os olhos de repente e eu me assustei.

–Ainda não. Mas vai conhecer. Em breve.
–Você e seus mistérios...
– É o melhor da vida.

Me virei e saí dali. Estava quase chegando em casa quando de repente percebi que tinha esquecido minha bolsa. Praguejei baixinho e voltei o caminho. E como eu queria não ter voltado. Como eu queria não ter visto o que eu vi...

Como eu queria...

Como eu queria ter pego na mão dela a 15 minutos atrás e ter a obrigado a ir para casa comigo.

Eu queria ter feito isso... Mas não fiz. O tempo não voltou e eu pudi ver a palidez cadavérica da minha irmã.

Ela estava morta.

Ainda hoje os fatos nublavam a minha mente e eu sentia um gosto de fel na boca.

Ela estava nua, ensangüentada e morta. Olhei ao redor para ver se tinha alguém perto. Ninguém. De repente, meus olhos pousaram num bilhete escrito ela própria Emily. Essa foi a primeira vez que vi o nome dele. Primeira de muitas.

Li e reli em meio às lágrimas aquelas poucas linhas, tentando decifrar o significado oculto por trás de tudo aquilo.

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