Capítulo I
Uma melodia. Espreguicei-me e acordei com o som de uma melodia. Ela estava um pouco longe mas me fez ter um sorriso no rosto, quando nem mesmo eu sabia se tinha acordado ou não.
Atirei meu cobertor para o lado, praticamente no mesmo instante que o despertador tocava. Não sei para que eu continuava – e insistia – toda noite em colocar ele ali. Talvez fosse questão de vicio. Hábitos. Mas meu corpo – biologicamente acostumado – acordava todos os dias na mesma hora.
Sete e meia da manhã.
No mesmo momento em que o meu vizinho desconhecido tocava uma canção que me enchia a mente, mesmo que eu não soubesse de quem era. Ou quem ele era. Eu só sabia que gostava. Me fazia ficar feliz. Biologicamente falando. Minhas células se animavam.
Algum dia eu bateria em seu porta e perguntasse que música era aquela. Talvez eu pudesse comprar um CD e escutar durante o dia também. Eu tinha a impressão que poderia escutar aquela música para sempre e nunca enjoaria.
Algum dia...Não hoje.
Corri para o banho e dei um gritinho fraco quando a água bateu em meu corpo quente do sono. Lavei os cabelos, que caiam abaixo dos ombros. Eu não tinha muito tempo. Assoviei uma canção enquanto sai do banheiro e me vesti ligeira. Bati a porta com força e fui pegar o elevador. Sorri quando ele chegou rápido....a porta estava quase se fechando quando vi a sombra da porta do apartamento vizinho se abrir. Mas era tarde demais e eu só vi um vislumbre de seus cabelos revoltos de tons bem claros.
Eu acho. Talvez.
Tudo aconteceu rápido demais. Dei de ombros e nesse dia resolvi caminhar. Eu morava numa cidade um pouco afastada. Nem era tão movimentada assim. Era ideal. E eu tinha a minha lojinha.
Sou florista. Eu vendo flores.
Eu vendo sonhos.
O meu pai. Ele vendia sonhos. Ele se doava.
Eu nunca entendi – na época – o porquê de tudo aquilo. Eu chorava muito quando aqueles garotos sujos batiam na nossa porta, querendo falar com ele.
Eu soube o porquê mais tarde. Bem mais tarde.
O meu pai...era o único que podia ajudá-los.
Que ainda podia ajudá-los.
Eu ainda lembro do dia que um desses garotos voltou.E não estava sujo. Eu tinha apenas dez anos e brincava com a minha bicicleta no jardim quando ele chegou.
Eu era muito nova para entender o que estava acontecendo. Meu pai saiu de casa sorrindo.E o abraçou. Achei estranho quando o garoto começou a tremer e balbuciar um ‘Obrigado’.
Meus olhos piscaram. E eu me senti estranha.
Só fui perceber que chorava quando minha mãe me abraçou, enxugando as minhas lágrimas.
– Porque está chorando meu amor?
–Eu não sei mamãe...eu não sei...
E ela me abraçou. Eu nunca me senti tão bem como naquele momento.
– Kristen...!
– Oi Jill! Tudo bem? Bom dia.
Abri um sorriso enquanto ela saltitava ao meu redor. Jill trabalhava comigo há...quanto tempo mesmo? Um bom tempo. Ela parecia um raiozinho de sol. Sua presença me fazia ficar bem. Ela tinha 17 anos e estudava a noite. Durante o dia me ajudava na loja.
– Bom dia, Kris...
– Você chegou cedo. Algum problema?
Ela riu, balançando seus cabelos loiros e compridos. Quase até a cintura. Sua pele era branquinha como a minha. Mas não tinha sardas e eu tinha. Jill era mais alta...do que eu, mesmo com cinco anos de diferença entre nós.
– Não. Só...posso sair mais cedo hoje?
– Há...Não precisava ter chegado mais cedo por causa disso não. Eu não me importo.
– Eu sei. – seus olhos não me encararam. Era estranho. Naquele momento, toda a sua alegria parecia que tinha se esvaído. – Você é boa demais.
– Sou normal. – Pisquei os olhos. – Então, já que está aqui...Vamos colocar a mão na massa?
– Essa é a intenção.
Ela riu, me puxando para a parte de trás da loja. Era bem grande. Troquei minha roupa por outra, mais confortável para mexer com flores e também não me cortar. Vesti minhas luvas, e a Jill pegou alguns ramos. Tínhamos uma mesa grande, de madeira onde tínhamos diversos tipos de flores diferentes. Ali arrumávamos os arranjos das encomendas. Hoje, um pouco mais tarde, seria um batizado.
Flor de Pera.

É a flor do pêssego. Elas são tão doces, meigas, perfeitas...elas abrem a estação da primavera. São perfeitas para um batizado. Eu fazia os arranjos e mal sentia o tempo passar. Escutei a Jill se levantar e ligar o rádio.
Aquilo me fez sorrir. Aquilo me fez lembrar. O meu vizinho.
– Que foi? – Ela perguntou, provavelmente vendo a minha expressão deliciada.
– Eu lembrei...
– VOCÊ LEMBROU? DE QUE?
Enruguei minha testa, não entendendo a sua explosão.
– O que há com você...? Isso foi estranho Jill...Eu lembrei do meu vizinho...Essa música é parecida com a que ele toca toda manhã. – sorri – Eu amo a música que ele toca...mas não sei...quem é...qual é...
– Porque não pergunta a ele?
– Eu?
Comecei a rir.
– Isso seria muito estranho. Talvez um dia...
Ela parecia querer contar algo.
Algo que eu não sabia.
Algo que eu devesse saber.
Mas poderia ser apenas uma impressão.
Ela balançou a cabeça. E sorriu.
E tudo estava normal de novo.
– É. Tem razão.
A campanhia tocou. Alguém chegava até a loja.
– Eu vou lá. – Ela falou, se levantando. – Fica aí terminando os arranjos.
Apenas dei de ombros, observando ela partir.
"Seja corajoso, você não pode saltar um abismo com dois pulos."
David Lloyd George
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